ESCRITOS DIVERSOS — N. Sri Ram

Este volume reúne 9 obras de menor extensão.

Cada obra é delimitada por seu título original.

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ÍNDICE DAS OBRAS INCLUÍDAS NESTA COLETÂNEA:

Algumas das obras contidas neste volume são:
1. Em Busca da Felicidade

2. Liberdade em Si Mesmo

3. A Verdade de Dentro

4. Uma Revolução em Si Mesmo

5. A Regeneração Humana

6. A Modificação da Mente

7. O Campo Aberto do Terceiro Objetivo

8. A Consciência: Sua Natureza

(1 obra adicional incluída nesta coletânea)
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═══════   Em Busca da Felicidade — N. Sri Ram ═══════

A BUSCA DA FELICIDADE

N. Sri Ram

A busca da felicidade é um fenômeno universal.

Onde há vida, há essa busca.

Ela faz parte do processo do movimento da vida.

Ser feliz e o movimento em direção a uma felicidade mais profunda, mais plena, mais perfeita é algo natural, algo comum.

No entanto, a felicidade é sempre perfeita.

Mas quando esse princípio que chamamos de "mente" entra nesse processo, ele se diferencia da vida; porque a mente é sempre objetiva em sua perspectiva — há o cognoscente e o cognoscido —, diferenciação essa que é uma visão falsa, uma ilusão.

Naturalmente, a mente é também uma atividade da vida, mas a atividade de uma parte separada do todo.

A própria essência da mente é essa separação entre parte e todo.

Em vez de deixar a vida como um todo entrar em si mesma, Manas, o princípio pensante, identifica-se com, e avidamente se une aos movimentos particulares que constituem as percepções sensoriais, as experiências sensoriais.

Ele escolhe a parte, o isolado, em preferência ao todo.

Essa escolha é realmente uma adesão, um apego ou adição, que impede o livre fluxo da vida no aspecto da consciência, isto é, uma cognição plena.

Vemos isso no fenômeno de que a mente presta atenção a uma coisa — aquilo que lhe agrada — e não a outras.

Ela é movida pela busca de gratificação, do estimulante, do excitante, que ela confunde com felicidade.

O prazer derivado da gratificação contém em si o princípio do "eu".

Pois há o desfrutador e o desfrutado.

O prazer gira como um espetáculo deleitável em torno do desfrutador.

O "eu", que se separa dos outros e se coloca em oposição a eles, é uma ilusão que surge do movimento parcial da mente.

Ele é destrutivo daquela felicidade que é uma experiência de totalidade.

Quando a vida é um todo, ela é feliz dentro dos limites dessa totalidade.

Totalidade é harmonia, e felicidade é a experiência da harmonia.

Conflito e discórdia geram sofrimento e vacuidade ou vazio.

O anulamento da relação entre si mesmo e o outro é o isolamento do eu.

Nesse anulamento está a solidão.

A relação está presente na vida, mas não é vista pela mente, que cria muros de separação e de egoidade.

A infelicidade surge da perda daquela totalidade que é a realização da vida.

O que é essa realização? É um movimento de um estado de totalidade para outro.

Ambos são expressões de si mesma, isto é, apenas uma parte do viver.

Não é um movimento com um objetivo, mas um movimento de expressão espontânea de si.

É autoexpressão sem um eu.

A totalidade é um absoluto.

A felicidade é um absoluto.

Em um estado de totalidade não pode surgir um objetivo a ser alcançado.

Pois esse objetivo estaria fora de si mesmo.

Essa totalidade, sendo a totalidade da vida, não é um estado estático; pois a vida é sempre um movimento.

Mas o movimento apenas revela o que a vida eternamente é. Percepção perfeita, ação perfeita, unidade perfeita, felicidade perfeita estão todas nesse movimento.

A percepção é fragmentada, a ação desviada e extraviada, a unidade perdida e a felicidade negada, quando aquilo que é apenas uma minúscula parte arroga para si o status e a função do todo; em outras palavras, quando a consciência, que deveria ser parte do movimento total da vida, que é um movimento de unidade, separa-se a si mesma, originalmente com o propósito de focar, ou de mera cognição, mas subsequentemente em independência, por um apego aos objetos da cognição.

Assim, uma ilusão que persiste até que a mente se corrija; assim, conflito; assim, Karma; assim, infelicidade.

A felicidade reside na restauração da totalidade, após a transcendência dos apegos, que não são na realidade apego a pessoas ou coisas, mas um apego à gratificação que se deriva delas.

Quando nada é buscado e nada é retido, não há "eu". O sujeito desaparece com o predicado, o desfrutador com o desfrute que é desejado ou ao qual se apega.

Quando o "eu" se vai, a separação se vai, a solidão se vai para sempre — aquela solidão que arrastava os processos do tempo.

Então a felicidade, que é imensurável, porque é tão vasta quanto a vida, e o amor, que é uma comunhão eterna através da porta sempre aberta do coração, vêm a ser e reinam supremos.

O Teosofista

═══════   Liberdade em Si Mesmo — N. Sri Ram ═══════

LIBERDADE EM SI MESMO                                                    N. Sri Ram

QUANDO alguém fala de Liberdade, o que geralmente tem em mente é liberdade de condições particulares ou de certas relações que acha irritantes, que o impedem de desfrutar o que deseja.

Mas há inúmeras coisas na vida que são indesejáveis e surgem em algum momento ou outro.

Mesmo que exista uma pessoa que esteja contente, livre de problemas e preocupações, essa condição não dura muito.

A pessoa se cansa até daquelas coisas que lhe proporcionaram o mais agudo prazer.

A tristeza e o sofrimento chegam a ela mais cedo ou mais tarde.

Portanto, a questão é: É possível a alguém alcançar um estado de liberdade total, com tudo o que isso significa, não uma liberdade parcial e temporária disto, daquilo ou de outra coisa? Se essa questão puder ser respondida afirmativamente, como o foi pelos grandes Mestres espirituais que a investigaram em sua máxima profundidade, não pode haver nada de maior significado para as nossas vidas.

Obviamente, tal liberdade deve significar liberdade dentro de si mesmo, um estado de mente e coração, não dependente de qualquer circunstância ou pessoa externa a ele, e ainda assim não isolamento ou imobilidade.

A essência da liberdade reside na possibilidade do movimento.

A vida, a energia única que é, é sempre um fluxo e significa relações em todos os lados, sem as quais, como a conhecemos, ela nem sequer existiria.

Percepção, interesse, resposta, ação — essas são suas características que, para a entidade consciente — o “sujeito”, distinto dos objetos externos a ele — constituem relação em um sentido real e vivo.

Ao considerar a possibilidade da liberdade mesmo em meio às várias relações que se estabelecem, permitindo o livre fluxo da vida e suas expressões, uma distinção importante deve ser feita entre o sujeito, cuja natureza é o puro conhecer e, surgindo dessa natureza, todas as faculdades que constituem a inteligência, e o “eu” em cada um de nós, com o qual, para todos os efeitos práticos, ele se identifica.

O eu tem uma natureza diferente, sendo um centro de reações que ocorrem mecanicamente; como resultado dessas reações, que obscurecem sua percepção e a rebaixam, há uma identificação entre o Ser no qual reside a faculdade de conhecer, isto é, a consciência em sua pureza, e as impressões que incidem sobre ele e as imagens formadas dentro dele pelos objetos externos a ele. Uma lâmina colorida, digamos verde ou vermelha, pode ser colocada sobre um filme ou vidro absolutamente transparente.

O vidro, se fosse animado e capaz de imaginação, mas estivesse em uma condição de inconsciência, semissonho, poderia pensar ser verde ou vermelho, conforme o caso. Um fenômeno semelhante não é desconhecido em casos de doença mental, durante os quais o paciente pensa ser outra pessoa, cuja imagem tem em sua mente.

É assim que alguém se identifica, devido a diferentes reações, com o que lhe é externo, isto é, ao seu ser essencial, seja uma raça, um país, uma religião que lhe foi ensinada, ou qualquer outra coisa, incluindo todas as experiências de seu passado que estão em sua memória.

A consciência que assim se identificou é o eu, separado de outros eus.

À realização primária “eu sou”, ela acrescenta as marcas de sua identificação: “eu sou isto, aquilo e mais aquilo outro”. A identificação, que se deve à falta de percepção clara ou consciência, é uma ilusão psicológica e não está na natureza real das coisas.

Apesar de tais identificações inconscientes, a mente que pertence a esse eu e ativa sob sua sombra pode mover-se com celeridade e habilidade e mostrar muita engenhosidade.

Contudo, pode haver um senso de euforia no exercício das capacidades, mas não haverá a condição ou o sentimento de liberdade dentro de si mesmo.

Uma vez que “eu” implica confinamento — vemos isso na vida externa como um confinamento daquilo que se pensa pertencer a alguém — não pode haver liberdade real dele. Ele só pode conseguir ser livre de coisas particulares por um tempo.

A liberdade realmente consiste na liberdade do eu, de suas propensões e do tipo de ação que daí resulta.

A ação dessa entidade limitada no campo onde se move e opera é influenciada por forças que a atraem para certas coisas e a repelem de outras em vários graus de intensidade.

Essas são as forças de seus desejos, anseios, medos, ódios e aversões; e há outras forças afins que operam de maneiras complexas e tortuosas.

É a rede criada por essas forças na qual a entidade consciente está presa, tanto mais seguramente porque se identifica com essa rede.

Os movimentos dessas forças são sentidos por ela como seus próprios movimentos.

Isso faz parte do processo de identificação.

Assim, há de um lado a identificação, que é uma ilusão, e de outro, os movimentos dessas forças, sua ação e seus resultados.

Em uma condição de inconsciência, os movimentos que ocorrem são em grande parte elementares, confusos e mecânicos.

Podemos observar isso em nosso pensamento e em nossos sentimentos.

No entanto, por um processo de ajuste mútuo, esses movimentos se estabelecem em um padrão relativamente fixo, que varia de um indivíduo para outro devido às experiências particulares que cada um vivencia e às suas reações a elas.

Esse padrão torna-se um mecanismo psicológico em si mesmo, que funciona automaticamente, tendendo a repetir os mesmos pensamentos e emoções repetidamente.

Quanto mais automática a ação, menos se tem consciência dela. Assim, cede-se à raiva ou a um sentimento lascivo sem perceber esse ato.

Nosso pensamento, quando não é definitivamente direcionado com um objetivo em vista, procede de uma coisa a outra por elos de associação em nossas memórias, sem qualquer volição real de nossa parte, de acordo com hábitos e tendências estabelecidos.

Esse tipo de pensamento, que constitui uma parte tão grande de nossas vidas, ocorre por si só, como em um sonho que não é nem plenamente desperto nem obliterado.

O que conecta a entidade no centro com o objeto que a confronta em um momento particular é a energia de sua atenção, que pode ser caracterizada por diferentes graus de intensidade, correspondendo às diferentes tensões de uma corda de violino.

As condições de estar frouxa ou desafinada significariam falta de atenção e interesse.

É assim que se encontra a maioria das coisas que não o afetam com uma sensação de prazer.

Se todas as cordas, todos os raios do centro, estiverem não vibrantes, isso significaria uma condição de apatia geral, tendendo ao tédio, ao qual geralmente se reage, após algum tempo, com um anseio por sensação e excitação.

Estar excessivamente tensionado é estar em um estado de tensão que se manifesta como ansiedade, agressividade e assim por diante.

Fica-se tenso por causa do medo, da ambição, do impulso de agarrar, de possuir, de experimentar uma sensação que se antecipa, também de dominar e impressionar os outros.

Mas tudo isso está muito longe da liberdade interior, que se experimenta, em momentos ocasionais, como uma condição de facilidade, de paz, de uma felicidade que brota.

É a liberdade de todas as tensões, exceto a de uma corda perfeitamente afinada — na qual não há nem impulso nem inibição — capaz de vibração e ressonância.

Todo o continuum de consciência, que pode ser concebido como consistindo de inúmeras dessas cordas ou raios, pode ter essa qualidade.

Sem uma condição interior verdadeiramente relaxada, porém não frouxa, não apática, não haverá a capacidade de ver as coisas, sejam elas quais forem — em perspectiva, em sua ordem natural, sem exageros e obscuridades.

A ação em um estado de liberdade interior não provém de um impulso, consciente ou inconsciente, de preencher um vazio dentro de si mesmo.

Só pode ser ação pelo bem de sua retidão, não por seu "fruto", para usar as palavras do Gita, não por qualquer coisa a ser obtida dela, física ou psicologicamente.

O prazer de ser elogiado, de obter uma boa opinião de si mesmo, de cavalgar a onda do sucesso, não entra nisso. Nenhuma das várias reações pessoais que são as motivações usuais entra nisso. A ação flui livremente de um estado de autocontenção e equilíbrio que não sofre de nenhum impulso de ser alterado.

É uma ação não compelida de fora ou de dentro.

Não dirigida por forças mecânicas, nasce de uma inteligência que está realmente desperta e não obscurecida pelas sombras do eu.

Tem o caráter de uma emanação totalmente livre, como a qualidade da misericórdia que não é forçada, na linguagem de Shakespeare, de dar, sem buscar, de amar.

Podemos ver um pássaro voando, planando, girando ou abrindo caminho de asas para algum lugar.

Ele parece desfrutar desses movimentos que faz em liberdade.

Os movimentos são espontâneos e expressam a alegria do movimento.

Não são desprovidos de inteligência para os propósitos do pássaro.

Mas sua ação é instintiva.

Um estado de liberdade no coração e na mente de um ser humano mostra características semelhantes: ação por um instinto de retidão (que é um composto natural de orientação correta e um julgamento perfeito baseado em um equilíbrio instantâneo de fatores) e alegria em assim agir, e espontaneidade nos impulsos que causam a ação.

Amor, generosidade, o desejo de dar ou ajudar, tudo isso surge espontaneamente.

Tal liberdade na própria natureza do ser de alguém é como o sopro de vida que anima cada célula do corpo vivo.

Para obter essa liberdade, é preciso desejá-la como algo que é belo em si mesmo e amável, como a vastidão aberta do céu com profundezas ilimitadas, e não buscar trazê-la para dentro dos estreitos limites do eu.

Para realmente saber como ela é, é preciso perceber os obstáculos a ela, as malhas da teia complicada.

Como a condição existente se desenvolveu por um longo processo mecânico, como em um sonho, sobre o qual não tivemos controle, ela pode ser inteiramente mudada se alguém despertar desse sonho.

A diferença entre vigília e sono é essencialmente a diferença entre prestar atenção e não prestar atenção alguma.

É preciso dar atenção às coisas de significado para a própria vida.

É somente através do autoconhecimento que alguém pode libertar-se completamente; e não é o conhecimento obtido de um livro contendo vários termos e descrições, embora isso possa ter valor como um mapa, mas o conhecimento proveniente da observação real de si mesmo como ele é, pensa e age.

A meta da Libertação, que foi colocada diante do buscador religioso na Índia, é realmente um estado de Liberdade absoluta dentro de si mesmo.

Tem sido compreendida como um fim reservado a todo ser humano, a ser alcançado após muita luta e esforço.

A natureza desse fim é geralmente pensada como união com Deus.

Mas não se sabe qual é o significado da palavra Deus. Houve também discussões sobre o que a união realmente conota.

Mas alguém pode conhecer a verdade a respeito de tais assuntos diretamente por si mesmo somente quando todo tipo de preconcepção a respeito deles tiver sido eliminado de sua mente e houver nele a condição necessária para a percepção da verdade, seja com relação a tais assuntos transcendentes ou a quaisquer outros com os quais ele possa estar praticamente preocupado.

A Liberdade é essa condição, porque é liberdade de toda propensão que possa nos desviar da verdade absoluta.

É somente a partir da liberdade em si mesmo que pode haver o desabrochar da beleza, bem como do gênio latente no homem.

De "The American Theosophist"

═══════   A Verdade de Dentro — N. Sri Ram ═══════

A VERDADE DE DENTRO                                             por N. Sri Ram

como publicado em The Theosophist - Julho

The Theosophical Publishing House, Adyar, Chennai [Madras], 600 020, Índia

HÁ pessoas que pensam que os ensinamentos antigos, que alguns de nós consideramos como constituindo um corpo de sabedoria imemorial, não podem interessar ao homem moderno porque ele se moveu para uma esfera de conhecimento e ação em expansão, à qual todas as suas ideias e interesses estão muito intimamente ligados.

Há obviamente alguma verdade nessa visão, mas que tipo de conhecimento é a questão.

A inferência adequada da observação acima é que devemos encontrá-lo onde ele está, examinando suas ideias e compreendendo seus problemas e dificuldades.

Esses problemas são criados em grande parte por sua absorção nessas mesmas ideias e interesses.

Obviamente, ele não está em paz consigo mesmo nem em uma relação feliz com seus semelhantes; e não pode haver cura para essa condição em qualquer tipo de filosofia que meramente racionalize as ideias que ele entretém ou apele aos próprios interesses que constituem as limitações de sua mentalidade.

Os graves perigos na situação mundial atual, bem como as causas do descontentamento interior e da inquietação que encontramos em muitas pessoas, brotam das condições do mundo altamente complexo e sobrecarregado de hoje, ao qual sua mente se entrega sem uma compreensão de si mesma.

O mundo não é mais um lugar simples para se viver. Está pesadamente [Página 212] carregado de interesses diversos que têm sua base física e reflexo nas estruturas com as quais estamos cobrindo a terra, os arranha-céus e as instalações pesadas, as organizações de propósitos diversos e suas atividades incessantes.

Tudo o que tem massa exerce gravidade; neste caso, ela é exercida sobre uma mente que é incapaz de permanecer autossuficiente e livre, mas é impressionada, influenciada, puxada e empurrada, todo esse processo intensificado pela competição mortal entre indivíduos, grupos e organizações ou por ganhos de vários tipos.

As novas condições foram criadas pelo próprio homem e são evidência de seu sucesso em certas direções que ele seguiu; mas esse sucesso ameaça tornar-se sua ruína.

As forças que atuam sobre ele de diferentes pontos da circunferência de sua vida, em muitos casos uma linha em zigue-zague com recantos e esquinas, não são contrabalançadas por nenhuma força interna que possa mantê-lo em um estado de harmonia e bem-estar internos.

Assim, há uma tendência crescente à desintegração na sociedade, bem como no indivíduo, como mostram as estatísticas de pessoas neuróticas e doentes mentais.

Porque os interesses e as pressões são tão divergentes, especialmente nas áreas onde a competição é mais acirrada, há divisões no corpo político.

Não há princípio de coerência na sociedade como um todo atualmente, exceto várias formas de interesse próprio que tanto unem quanto dividem, e a necessidade comum de segurança.

Na frase de Rousseau, há um contrato social, e esse contrato é constantemente buscado ser modificado de uma forma ou de outra pelas partes envolvidas, a fim de promover seus interesses setoriais.

Quando não há nada central à existência de alguém e fundamental, aceito pelo indivíduo como base para sua própria ação e conduta, os motivos que prevalecem são os de conveniência e não mais profundos do que aqueles que vigoram em um casamento de conveniência; e a sociedade, que é uma coleção de indivíduos, permanece em uma [Página 213] condição de coexistência precária das várias divisões criadas nela pelas forças em ação, de acordo com sua força variável.

Há inúmeras pessoas — e seu número crescente está se tornando um problema sério nos países que estão na vanguarda dos desenvolvimentos tecnológicos — que estão inteiramente à mercê de forças externas, de cada brisa passageira e de cada ideia extravagante, porque lhes faltam os fundamentos do autoconhecimento, nunca tendo sido ensinadas a parar e examinar suas fantasias e impulsos.

O mundo torna-se, para pessoas voltadas ao mero excitamento, prazer e ganho, uma feira cheia de ruído e agitação, com muitas barracas, cada uma prometendo alguma pechincha ou alguma forma de diversão ou atração.

Quando a mente é constantemente atraída para cá e para lá, e simultaneamente, por muitas forças, ela logo se torna desorientada, descomposta e incapaz de descansar em qualquer coisa por qualquer período de tempo.

Quando essa é a condição, mesmo nos sonhos não se experimenta paz.

As duas guerras mundiais causaram, naturalmente, uma enorme convulsão na sociedade e desenraizaram seus fundamentos anteriores.

As mudanças que se seguiram em seu rastro tornaram evidente a vacuidade de muitas das suposições e ideias que constituíam a base da antiga ordem social e internacional.

O desenraizamento deu a indivíduos e grupos em todo o mundo a sensação de uma nova liberdade, que é boa em si mesma, e os levou a formar suas próprias ideias e conduta em relação às novas circunstâncias.

Mas o homem necessita não apenas da liberdade de restrições e convenções artificiais, mas também de compreensão e sabedoria para guiar-se corretamente.

Esta é uma verdade completamente negligenciada em nossa civilização atual.

Se pararmos para considerar quais eram as questões com que os antigos livros ou ensinamentos se ocupavam, descobriremos que se ocupavam principalmente dos princípios que deveriam ser a base da vida de cada um, dos fenômenos a ela pertinentes, dos [página 214] problemas de suas relações e conduta, e também de questões filosoficamente relacionadas a tudo isso, como a natureza do homem, bem como a origem, o curso, a culminação e assim por diante da vida.

O interesse em tais questões e o pensamento a elas dedicado pelos pensadores e filósofos antigos podem ser explicados pelo fato de que os homens viviam em condições que não permitiam um estudo extenso do mundo físico externo ou incursões nele. Isso nos pareceria uma limitação, e era em certo sentido, mas significativamente deu origem a certos outros desenvolvimentos como compensação.

Não estando em posição de se afastarem muito de onde viviam e entrarem em contato com uma grande variedade de condições e objetos, como fazemos hoje, as pessoas eram lançadas em grande parte sobre si mesmas e forçadas a descobrir o que pudessem descobrir de valor por si mesmas e em si mesmas.

Os antigos ensinamentos em livros considerados os mais autoritativos ou importantes — não as exposições e comentários posteriores — não eram argumentados extensamente.

Eram obviamente produtos da intuição e, portanto, pensava-se que aquele que os recebesse com mente indivisa e neles meditasse poderia instintivamente perceber sua verdade.

Mesmo quando os antigos livros e mestres falavam de questões como alma, libertação, destino humano e assim por diante, que chamaríamos de transcendentais, referiam-se a questões cuja verdade poderia ser descoberta dentro de si mesmo.

Quando o rosto de um homem está voltado para o chão, como ocorre na maioria das vezes ao escalar uma encosta de montanha, ele não vê as alturas e o céu.

Estando fora de vista, essas coisas poderiam ser consideradas transcendentais por ele, e ele poderia dizer que o chão em que sua atenção está centrada é a única coisa real.

Mas isso não alterará os fatos da existência.

O céu e as alturas são tão reais quanto o chão pisado.

Em todo caso, o conhecimento das coisas externas não pode substituir o conhecimento de si mesmo, conhecimento que deve [página 215] incluir o que somos profundamente em nós mesmos, sob as mudanças superficiais e transitórias.

Nossa atenção está agora ocupada pelas novas condições e pela experiência delas decorrente; portanto, não dedicamos mais atenção àquelas questões que atraíam nosso interesse em outros tempos.

Uma criança pode estar absorta em seus brinquedos no momento; pode estar correndo atrás de sua pipa ou de sua roda; mas isso não significa que não terá outras questões com que lidar ao crescer, ou que não existam outras questões de importância que a atraiam mesmo em sua infância.

O que o homem necessita hoje não é mais daquilo que tem e desfruta — embora haja grandes partes do mundo que ainda precisam ser providas das necessidades básicas da existência — nem do tipo de pensamento construído sobre suas reações às coisas, mas de uma compreensão que possa enxergar através de tais reações e criar liberdade dentro de si mesmo e paz.

Sua maior necessidade foi expressa por Jung no título de seu livro *O Homem Moderno em Busca de uma Alma*, sendo a alma essencialmente identificável com uma natureza de compreensão e paz, uma natureza livre de reações e também de pressões.

A mente que está ativa no presente desenvolveu-se de certas maneiras, mas o tipo de pensamento no qual ela se destaca é um pensamento que ela é capaz de transferir cada vez mais para um computador.

É claro que ela possui a imaginação e a habilidade necessárias para projetar o computador.

Cálculos que anteriormente exigiriam uma equipe de homens trabalhando por semanas ou meses agora são feitos em poucos segundos por uma máquina construída para esse fim.

Mas o fato de uma máquina poder assumir grandes partes do pensamento humano mostra a natureza geral desse pensamento.

Um computador, embora classifique os dados que lhe são alimentados e dê a resposta quase instantaneamente, não pode, contudo, ir além dos limites mecânicos de seu projeto.

O cérebro humano também aparentemente possui uma capacidade semelhante, embora ela se manifeste apenas em casos excepcionais. [página 216] Por exemplo, havia recentemente em Madras uma garota com uma mente semelhante a um computador.

Podia-se apresentar a ela uma questão aritmética ou matemática complicada.

Ela podia dar a resposta em poucos segundos.

Perguntaram-lhe como ela conseguia fazer isso. Ela disse: "Deus me dá a resposta", sendo Deus, obviamente para ela, o desconhecido.

Ela não sabia nem compreendia o que se passava dentro de si mesma.

O homem geralmente invoca "Deus" para explicar tudo o que é inexplicável para ele.

Sem seguir essa linha, podemos presumir que em algum nível dentro dela, do qual ela era inconsciente, operava uma mente semelhante a um computador.

O Sr. Ramanujam, também de Madras, o brilhante matemático, tinha a faculdade de poder dizer o resultado, a equação final, sem desenvolver os passos.

Mas creio que, em seu caso, era a ação de um senso intuitivo do que seria a resposta na adequação das coisas.

O que estamos cultivando nestes dias é uma mente que pode acomodar muitas coisas e funcionar com eficiência mecânica.

Mas um computador tem suas limitações.

Ele não pode sentir, não pode imaginar, é incapaz de amar ou conhecer a beleza ou a poesia, embora, se palavras e frases poéticas forem inseridas nele, possa sintetizá-las mecanicamente.

Ele não pode ir além da palavra, da letra e da figura, mas a vida significa muito mais.

Um dos Adeptos referiu-se a uma "Lei de Compensação", que opera em toda parte do universo.

De acordo com essa lei, parece que estamos pagando por nossos avanços atuais em certas direções ao falharmos em outros aspectos.

Um homem que tem uma mente rápida, ativa, astuta e que pode argumentar conforme serve aos seus propósitos, frequentemente se enreda em sua própria vida, além de causar dano aos outros.

Tal mente é propensa a enganar a si mesma.

Mas uma mente que é descomplicada, tranquila e aberta, negativa como a chamaríamos, frequentemente percebe as coisas de maneira muito mais verdadeira e clara, sem enganar a si mesma.

[Página 217]

Foi dito nos antigos livros indianos que o Espírito individualizado é, em sua natureza essencial, um poeta e um vidente, sendo sua poesia a poesia da verdade, em outras palavras, a resposta à beleza que está na verdade.

Mas, à medida que cai nas condições de espaço e tempo, extensão e sucessão, ele manifesta uma inteligência adequada a essas condições, isto é, uma mente capaz de examinar e confrontar fatos fora de si mesma, de definir, de movimentos precisos, lógica, e assim por diante.

Os melhores aspectos de nossa cultura moderna exibem estas últimas qualidades, mas sem o outro sentido, sua extraordinária delicadeza, sensibilidade e beleza.

Estamos descobrindo cada vez mais o padrão das coisas e os processos nele incluídos ou que lhe dão origem, mas perdemos seu significado, a vida e a beleza nele ocultas.

Nossa expansão tem sido horizontal, mas às custas da profundidade, sendo a expansão relacionada a todas as coisas que estão fora e a profundidade pertencente àquilo que está dentro.

A profundidade que está em nós, isto é, potencialmente em nossa natureza, não entra em ação, porque estamos tão absortos com as coisas na superfície.

A ausência dessa profundidade cria o vazio em nossas vidas, dando origem ao descontentamento e à insatisfação, que nenhuma quantidade de análise e explicações é capaz de curar, porque não vão ao cerne do problema.

Toda filosofia verdadeira só pode ter um fim: isto é, capacitar o homem a encontrar dentro de si mesmo a alegria e o amor e a liberdade e a paz que ele busca fora de si mesmo.

Tudo isso faz parte do significado da profundidade que está nele mesmo.

Todo o ensinamento antigo, em seu aspecto mais amplo, convergia para esta verdade central.

TEOSOFIA - A SABEDORIA DIVINA                                              por N. Sri Ram A Sociedade Teosófica foi fundada em Nova York em 1875, conjuntamente por Madame H. P. Blavatsky, uma russa, e pelo Cel.

H. S. Olcott, um americano, assistidos por outros.

Em 1879, a Sede Mundial foi transferida para Bombaim e, mais tarde, em 1882, para Adyar, Madras.

É uma organização internacional com membros provenientes de 56 países, pertencentes a qualquer religião do mundo ou a nenhuma.

Eles estão unidos por sua aprovação dos Objetivos da Sociedade Teosófica; por seu desejo de eliminar antagonismos religiosos e de aproximar homens de boa vontade, quaisquer que sejam suas opiniões religiosas; e por seu desejo de estudar verdades e compartilhar os resultados de seus estudos com outros.

Seu vínculo de união não é a profissão de uma crença comum, mas de uma busca e aspiração comuns pela Verdade.

Eles veem cada religião como uma expressão da Sabedoria Divina e preferem seu estudo à sua condenação, e sua prática ao proselitismo.

Todo aquele que esteja disposto a estudar, a ser tolerante, a almejar o alto e a trabalhar perseverantemente é bem-vindo como membro, e cabe ao membro tornar-se um verdadeiro teosofista.

Os três objetivos declarados da Sociedade Teosófica são:

1. Formar um núcleo da Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor.

2. Incentivar o estudo da Religião Comparada, Filosofia e Ciência.

3. Investigar as leis inexplicadas da Natureza e os poderes latentes no homem.

O Cel.

H. S. Olcott foi o primeiro Presidente (1875-1907), seguido pela Dra. Annie Besant (1907-1933), pelo Dr. G. S. Arundale (1934-45), e pelo Sr. C. Jinarajadasa (1946-1953), pelo Sr. N. Sri Ram (1953-1973), pelo Sr. John Coats ( ), pela Sra.

Radha Burnier (1980- )

A palavra "Teosofia" não é definida nem na constituição da Sociedade Teosófica nem em qualquer documento oficial.

Evidentemente, pretende-se que cada interessado descubra por si mesmo o que ela é ou de que natureza é. Houve pessoas ao longo dos tempos que embarcaram nesta busca, e o que foi registrado de suas descobertas ou ensinamentos está disponível para nosso estudo.

Uma pessoa pode descobrir o que é a Teosofia em parte pelos pensamentos e escritos que chegaram até nós desde os tempos antigos, em parte pelo estudo das obras teosóficas modernas de H. P. Blavatsky, Annie Besant e outros, e em parte por suas próprias meditações e investigações sinceras.

Na própria palavra "Teosofia" há alguma indicação da direção em que buscar.

Teosofia ou Teo-sophia pode ser traduzida como "Sabedoria Divina". Algumas pessoas podem preferir chamá-la de Sabedoria Espiritual.

Mas, então, o que é Sabedoria e o que é espiritual? Certamente sabedoria não é conhecimento.

Uma pessoa pode ter uma grande quantidade de informação ou mesmo conhecimento de forma bem ordenada, e ainda assim errar grandemente em seus julgamentos, ser completamente equivocada em suas avaliações e, em suas ações, ser flagrantemente imprudente.

O conhecimento pode ser usado para um propósito maligno ou para um bom propósito.

A mera posse do conhecimento é como a posse de riqueza, de recursos e capacidades, que podem ser usados para bons fins ou para fins errados e prejudiciais.

É fácil encontrar pessoas que são eruditas, mas que são confusas em seu pensamento e até mesquinhas e mal aconselhadas em seu comportamento e ações.

A sabedoria é algo totalmente diferente do conhecimento.

Ela possui uma qualidade superior e distinta do conhecimento comum.

O que é essa qualidade e como ela se manifesta? Isso exige uma investigação profunda.

Eu sugeriria uma abordagem um tanto simples para a questão.

A sabedoria reside na ação em conformidade com a Verdade, a verdade de todas as coisas na vida.

Quando a vida é de um certo tipo ou natureza, se agimos de uma maneira que contradiz essa verdade, estamos agindo por ignorância ou ilusão e estamos fadados a sofrer.

Todas as ilusões inevitavelmente enganam e falham.

Elas serão, em última instância, desfeitas pelos atos da existência.

Geralmente interpretamos ação como nossos feitos físicos externos, o que realizamos exteriormente em relação a pessoas e coisas, o que é passível de observação por outros.

Mas temos que compreender esta palavra "ação" em um sentido muito mais verdadeiro e abrangente.

Pensar é ação, sentir é ação, além dos atos visíveis externos que possamos realizar.

Se entendermos ação como a ação de toda a natureza do homem, o funcionamento de todo o seu ser, incluindo o aspecto físico dele, então, se um homem age, isto é, pensa, sente, age de uma maneira que expressa ou não entra em conflito com a verdade das coisas, ele é sábio; mas se ele age de acordo com várias ideias que não correspondem à realidade das coisas nem se harmonizam com o processo básico de si mesmo ou do universo, ele está errado.

Isto é senso comum.

Em seguida, surge a questão: O que chamamos de Verdade? Aqui novamente nos deparamos com uma questão extremamente difícil de responder.

Conhecer a Verdade exige ir às coisas muito, muito profundamente.

Que coisas? A todas as coisas que realmente existem ou acontecem, em distinção ao que é meramente imaginado ou projetado a partir das esperanças e desejos de alguém.

Tudo o que realmente existe em qualquer nível representa a Verdade à sua própria maneira e medida.

Mas se algo é meramente imaginado, se há um conceito que é apenas uma projeção, uma alucinação ou sonho, pode não corresponder à realidade das coisas.

Tudo o que existe pode ser colocado em nossas simples categorias ou divisões.

Primeiro, há a matéria, em qualquer forma.

Há o mundo da matéria, e é com este mundo, em seu aspecto físico, que a Ciência moderna se ocupa.

Os fatos que foram descobertos pela Ciência, as leis que conectam esses fatos, tudo isso é o conhecimento do mundo da matéria.

Há as forças das quais esse mundo é composto, forças que formam a própria matriz ou substância da matéria, bem como as forças que parecem separadas da matéria e operam no campo da matéria.

Podemos considerar matéria e força como pertencentes à mesma categoria.

O conhecimento de sua natureza e propriedades é parte da totalidade do conhecimento. Compreender a Verdade neste seu aspecto mais externo requer, obviamente, uma mente objetiva, que enfrente os fatos, que não injete na explicação dos fatos ideias que não sejam inerentes a esses fatos, que sejam geradas subjetivamente à parte deles.

Essa objetividade torna a mente precisa, exata e lógica.

Todas as qualidades que distinguem o cientista são necessárias a todos nós para compreendermos a Verdade em qualquer aspecto.

Elas também são necessárias para conduzirmos nossas próprias vidas corretamente.

A disposição para enfrentar os fatos e excluir tudo o que for irrelevante ao lidar com eles são qualidades que devem moldar o pensamento em todas as questões.

Na vasta extensão da matéria, encontramos vida em inúmeras formas.

A vida parece uma mancha sobre o que chamamos de matéria inorgânica, inerte, mas talvez, na realidade, haja vida em cada coisa individual.

De qualquer forma, tal é a visão do Ocultismo, conforme ensinada pelos antigos Mestres.

É uma visão que tem profundas implicações e não pode ser descartada como impossível.

A vida tem suas próprias leis para seu funcionamento, crescimento e desenvolvimento.

Além disso, ela evolui.

Talvez a matéria também evolua — não precisamos entrar nesse ponto aqui — embora à nossa visão limitada não pareça.

A vida pulsa, expande-se, reproduz-se e evolui; ela tem essas e outras qualidades extraordinárias.

O estudo da vida, ou o conhecimento da natureza da vida, é uma parte importante da Sabedoria Teosófica.

Então, além da vida, há a consciência e a inteligência.

Onde quer que haja vida, por mais insignificante que seja a forma, há consciência.

Todo organismo vivo é consciente em um grau ou outro, mas no homem a consciência se eleva a níveis e funciona de maneiras que a vida em outras formas não o faz.

A vida tem de coincidir com o organismo, fluir junto com seus processos, limitando-se ao organismo, enquanto a consciência e a inteligência podem transcender o organismo.

Nossas mentes podem imaginar e sentir várias coisas, ir a reinos bastante fora dos limites da vida física.

Então, há uma quarta categoria, não facilmente percebida, sob a qual poderíamos incluir tudo o que é verdadeiramente espiritual, isto é, tudo o que manifesta a natureza do Espírito.

Sabemos pouco sobre este Princípio, do qual H. P. Blavatsky fala como onipresente e incompreensível para nossas mentes limitadas.

Se o imaginamos, tentamos formar um certo conceito dele, essa imaginação ou conceito surge de ideias que já existem em nossas mentes.

Minha mente é constituída de certa maneira por causa de minhas experiências de vida: nasci indiano e hindu; vivi em uma família particular; fui influenciado pelo meu ambiente; tive um certo tipo de educação e de companhias.

Tudo isso em conjunto condicionou minha mente, e inevitavelmente quaisquer ideias que eu forme são moldadas pelos fatos e fatores que entraram profundamente em minha composição.

Um conceito é uma projeção, e é projetado a partir do solo de ideias já formadas por certas forças que operam em associação com elas.

A imagem ou figura é criada pela mente de acordo com suas tendências e ideias; portanto, a conceituação não é o caminho para se chegar à verdade absoluta.

Além disso, o conceito de algo não é aquilo que ele é.

Um conceito de Deus ou da Divindade não é o Deus vivo.

Portanto, para conhecer a verdade, não deve haver nada na mente a partir do qual projetar.

A consciência tem de ser purgada de todo o seu conteúdo.

Nessa condição, o que se reflete é o que existe, isto é, a Verdade.

Há pessoas que alcançaram essa condição e descobriram o que está além da mente como a entendemos, isto é, o que pertence a esta quarta categoria, que tem uma natureza que é incondicionada.

Portanto, a Verdade tem todos estes aspectos: matéria, vida, consciência e o que está além dessa consciência.

Nesta série, a consciência é a única coisa, substância, chamemo-la assim, na qual e através da qual percebemos todas as outras.

A matéria, a forma material, o mundo material, são todos conhecidos apenas na consciência.

Como sabemos que existe algo espiritual, uma condição ou princípio espiritual? Nós o conhecemos também na consciência, mas em seu estado puro e não modificado.

A consciência tem a natureza extraordinária de poder voltar-se para si mesma, bem como olhar para fora de si mesma.

Sua ação é tanto objetiva quanto subjetiva.

Quando é capaz de perceber a verdade dentro de si mesma, ela conhece a verdade em seus aspectos espirituais e subjetivos.

Quando olha para fora, percebe os fenômenos, os objetos do mundo material.

E a vida participa tanto da natureza da matéria quanto da consciência, porque a forma na qual a vida habita, através da qual ela funciona, é composta de substâncias materiais, mas a vida também tem qualidades de consciência, como sensação, vontade, etc.

É somente uma consciência capaz de conhecer o que existe em todos os níveis, em todos os seus aspectos, que pode abranger a totalidade da verdade.

Ela se torna então una com a Verdade, e essa totalidade é uma unidade dentro de si mesma.

Quando a consciência é sensível, com uma sensibilidade que é sua própria natureza pura, está desperta em todas as suas seções e camadas, do mais alto Espírito à mais baixa matéria, é somente então que ela pode conhecer a verdadeira natureza do todo, daquilo que permeia esse todo, bem como a sutileza e a complexidade dos processos que constituem esse todo.

A consciência que abraça a verdade completamente age em conformidade com ela; em outras palavras, a verdade age através da pessoa, e então ela é sábia.

Mas mesmo sem conhecer o processo universal, todos os atos da existência nos diferentes níveis, se um homem é puro em mente, coração e corpo, vazio de si mesmo, ele alcançará inconscientemente um perfeito relacionamento com o todo e será capaz de agir com uma intuição da verdade que o guiará infalivelmente em tudo o que fizer.

Pássaros, animais e insetos têm instintos que são infalíveis para seus propósitos limitados.

O homem, que é muito mais desenvolvido, também é capaz de tal instinto, mas operando de maneira mais universal e de forma mais significativa.

Foi dito que aquele que se propõe a trilhar o Sendero espiritual ou oculto tem de se virar do avesso.

Esse instinto poderíamos chamar de Intuição.

Nele, a Intuição é agora suprimida e confundida por várias atividades de uma mente afetada por muitos fatores, suas esperanças, medos e assim por diante. A mente está sujeita a atrações e repulsões, que distorcem sua natureza.

Mesmo no seu melhor, seu modo de ação oferece apenas uma visão parcial.

Mas pode haver um tipo diferente de ação por uma consciência que pertence à natureza integral do homem, mais sutil, mais profunda, mais rápida, mais harmoniosa e mais em contato com a verdade.

Tal ação só é possível a uma mente que tenha revertido ao seu estado original não modificado.

Assim, podemos dizer que a Teosofia é um conhecimento da verdade em sua essência, do coração da verdade, daquela natureza ou Princípio que está presente em tudo o que existe e também no coração do homem, tornando possível a ele conhecer a verdade de tudo num lampejo.

Essa sabedoria é descrita como divina.

O que é divino? Permitam-me tentar uma definição.

O divino é aquilo que tem uma qualidade ou natureza à qual a mente e o coração podem se render sem qualquer reserva.

Uma pessoa pode dizer: "Eu me rendo." Ela pode ir a um templo, prostrar-se no chão.

Mas isso não é rendição real.

Há muita reserva por trás dessa suposta rendição, muitas expectativas e desejos.

A rendição não é física nem mental; tem de ser uma rendição por todo o ser.

É somente quando alguém se rende ou se entrega completamente, sem pedir nada, seja em amor ou devoção, que pode conhecer ou, antes, experimentar aquilo que é Divino.

Há diferentes abordagens possíveis para o que é a Teosofia. Quanto mais se estuda, menos fácil é defini-la, porque ela é a Verdade universal.

Como podemos definir uma Sabedoria que pertence à vida, portanto vive e respira, na qual há as profundezas que pertencem ao que chamamos de Espírito, que é mais sutil do que a mente mais sutil pode abranger, cujo cada movimento é pleno de significado com o significado daquele Espírito?

A Verdade, ou a Sabedoria, não pode ser conhecida exceto por uma mente que esteja completamente aberta a ela. É somente quando a mente está livre de toda ideia, todo desejo colorido, todo elemento de eu, que ela pode descobrir a Verdade.

Essa verdade é refletida em tal mente; não há necessidade de ir atrás dela. A verdade então vem à pessoa.

Ela a descobre em seu coração.

É somente na liberdade absoluta de mente e coração que a verdade em sua absolutez pode brilhar e manifestar-se.

Portanto, na Sociedade Teosófica procuramos manter essa liberdade que é como um caminho ou espaço aberto.

Essa é a razão pela qual a Teosofia é deixada livre de todas as definições, todas as limitações.

═══════   Uma Revolução em Si Mesmo — N. Sri Ram ═══════

UMA REVOLUÇÃO EM SI MESMO

N. Sri Ram

Uma Palestra proferida em Adyar

Isso pode parecer uma afirmação exagerada; no entanto, creio que ela expressa literalmente a verdade do que deve ocorrer, que não é nada menos que uma revolução completa em si mesmo.

Isso também pode parecer exagerado e até incompreensível, mas podemos abordar a natureza dessa mudança da seguinte maneira:

Que cada um examine a si mesmo como é, sua condição atual.

Deixando o corpo de lado, pois ele é apenas a vestimenta exterior, se ele observar as reações e ideias presentes em sua mente, verá que não é uma comparação forçada descrevê-la como uma espécie de saco que contém conteúdos variados, com sua boca quase fechada.

Cada um o encheu com uma certa quantidade de informação sobre o mundo ao seu redor, e também com várias ideias sobre sua relação com esse mundo, suas necessidades, desejos, posses, crenças, e assim por diante. Seu pensamento gira em grande parte em torno e entre essas ideias.

Se estudarmos a nós mesmos, veremos que, quando começamos a pensar sobre qualquer assunto, a mente tende a percorrer o mesmo trilho de antes.

Cada movimento da mente produz um certo sulco ao longo do qual suas energias tendem a fluir novamente.

Podemos deslocar um pouco nossas ideias, manipulá-las e reordená-las, transpô-las de várias maneiras, mas fundamentalmente são as ideias acumuladas ao longo de um período de tempo e as reações a elas associadas que constituem a estrutura de nossas mentes.

Na maioria das vezes, a mente está fechada e não admite prontamente quaisquer ideias ou verdades que perturbem sua condição estabelecida.

O que agora deve ocorrer é a transformação dessa mente fechada, que é como um saco, em algo aberto e diferente.

Virá-la do avesso significa o esvaziamento da mente, a purgação completa de seu conteúdo, de modo que ela não seja mais a mente como veio a ser, mas uma pura expansão de consciência sem nada aderido a ela. Todos conhecemos a ideia de Einstein do espaço e do tempo como um continuum, isto é, uma expansão que seria perfeitamente lisa e regular não fosse o fato de que há vários objetos nela, todos os objetos do universo, que a puxam de maneiras diferentes e criam irregularidades.

Assim, esse espaço torna-se finito e fechado.

Essa é uma concepção altamente iluminadora, quer a teoria esteja absolutamente correta ou não.

Várias ideias que se formam exercem cada uma sua pressão sobre a consciência, de modo que em vários pontos ela é puxada em direção a um certo centro que chamamos de nós mesmos ou empurrada para longe dele, e o que deveria ser uma expansão lisa e aberta torna-se um saco fechado.

É quando tudo o que ela contém é solto que a consciência, que em si mesma deve ser pensada como indestrutível e extraordinariamente elástica — tudo sobre ela é extraordinário — é restaurada à sua condição original, sem qualquer distorção, todas as irregularidades completamente aplainadas, e as várias pressões que a enrugam e a constringem não mais presentes.

Mais do que isso, ela se torna livre até mesmo de qualquer mancha ou traço de sua associação com os conteúdos passados.

Podemos ver que estado maravilhoso de mente e coração seria este, aberto em todos os pontos para refletir, registrar e conhecer tudo com absoluta verdade.

Tal mente, sem aquele centro de um eu para o qual tudo era anteriormente atraído, é uma mente pura, capaz de refletir a verdade.

Sua condição então é uma condição de humildade, na qual somente existe a possibilidade de sabedoria.

Humildade não é autodepreciação, como muitos pensam.

Quando digo que sou uma pessoa insignificante, estou deplorando minha insignificância, expressando o sentimento de que não sou tão importante quanto gostaria de ser. É o desejo de importância, de colocar-se em evidência e desempenhar um papel, que gera o sentimento de pesar por não se estar já ali.

A humildade é como a escuridão de um filme ou chapa fotográfica extraordinariamente sensível, na qual tudo o que está diante dela é verdadeira e fielmente refletido.

Para alcançar essa condição, não é preciso empenhar-se em nenhuma busca, o que seria a busca de um objetivo autoprojetado, mas é preciso despojar-se de tudo o que impede a capacidade de refletir a verdade, que é a verdade sobre tudo e sobre si mesmo.

A verdade manifesta-se como num espelho quando existe a condição na qual ela pode assim fazê-lo. Não é preciso então correr atrás dela. É um estado de negatividade magistral no qual tudo o que é positivo dentro de seu campo é automaticamente compreendido.

Aqueles a quem chamamos Mestres da Sabedoria, conforme os compreendo, são pessoas que chegaram a essa condição.

Em tal estado de humildade, que é pura e absoluta autonegação, no qual há completa ausência de egoísmo e nenhum elemento de autoafirmação, a verdade do que quer que se apresente a esse estado torna-se absolutamente clara e evidente por si mesma.

Qualquer afirmação de si mesmo, o que significa também das ideias que o eu a si mesmo anexou e tornou parte de si, o inchaço ou a empurrão de si mesmo, tentando impressionar os outros, e todas essas atividades do eu têm de cessar para que essa negatividade intrínseca, que é também pureza e humildade, venha a existir.

Quando pensamos num Adepto ou num grande Ser espiritual, geralmente formamos uma ideia do que ele é, que reflete nossa ignorância.

Ela não representa a realidade de seu estado de ser.

Pensamos nele como tendo vários poderes extraordinários, como uma pessoa que tem acesso a mundos ocultos e está em posição de conceder favores.

Ele pode ter tais poderes, mas essa não é a essência de seu ser.

Não é a posse de poderes que constitui a perfeição.

É a beleza de sua natureza, a verdade do que ele é, que evoca o amor e a admiração espontâneos de alguém.

Todos nós lemos sobre aquela natureza ou princípio no homem que em sânscrito é denominado Buddhi.

Geralmente é traduzido como Intuição espiritual.

Antigamente, a Dra. Annie Besant o chamava de "a Razão pura". Mas essas descrições transmitem apenas uma ideia parcial do que ele é em sua totalidade.

Poderíamos pensar nele simplesmente como a natureza espiritual mais profunda do homem.

A razão de eu me referir a isso aqui é que é somente na condição de pureza e humildade, que venho descrevendo, que essa faculdade extraordinária de Buddhi, ou consciência da verdade, como tem sido chamada, se desdobra.

Foi dito que o coração é a sede de Buddhi, enquanto o cérebro é a sede de Manas.

O coração é aquela natureza que se dá livremente.

A diferença fundamental entre Manas e Buddhi reside no fato de que, enquanto Manas é uma energia dirigida para fora, para diferentes particularidades ou partes de um todo, e tenta conhecê-las e suas relações mútuas, Buddhi tem uma abordagem diferente.

Ela abrange o todo com todas as suas partes a partir de dentro.

Ela conhece a verdade de uma coisa por identificação com ela, sendo essa verdade não meramente a verdade do que é exteriormente, a verdade de sua forma, mas também e principalmente o que é em si mesma, aparte da forma, a verdade da vida interior.

É um aspecto diferente da totalidade do ser de alguém que responde à qualidade ou natureza interna de uma coisa.

Há tal resposta quando há amor do tipo que se dá.

Como H.P.B. diz, Manas e Buddhi têm de ser trazidos em harmonia um com o outro, de modo que constituam a unidade de Buddhi-Manas.

Então se abrem várias possibilidades, todas as quais fluem de uma condição de dar-se a si mesmo, o todo do interesse e do amor de alguém à vida em cada forma.

A entrega completa de si mesmo é um estado de rendição que não pode ser produzido por nenhum ato de vontade.

Tal entrega tem de ser livre e não forçada.

Somente quando o eu, que é um produto da fórmula "eu quero", tiver completamente desaparecido, sido purgado da natureza de alguém, é que se alcança aquela ausência de tensão, pureza e sensibilidade na qual a verdade se manifesta.

A mudança de um ponto de vista é um devir, mas não um devir do eu.

É um desdobramento tornado possível pela dissolução do eu, processo que, uma vez iniciado, procede rapidamente, como o derretimento de águas congeladas no início da primavera.

Não pode ser um devir consciente, pois é um devir sem eu.

É o senso de um eu separado que rompe a unidade inconsciente que era nosso estado original.

O eu, como todos podemos ver, é uma coisa de muitos desejos.

É realmente um produto de desejos contraditórios.

Como todo desejo, ou qualquer coisa que seja, é basicamente centrado no eu, é uma questão saber se não é o querer coisas diferentes, segurá-las e possuí-las, que cria a ilusão de um ego com muitos impulsos contraditórios.

Não estou me referindo àquele "Ego" em nossa literatura teosófica que é a soma de todas as possibilidades espirituais realizadas, contendo dentro de si o fio que as conecta.

É a dissolução do centro de separatividade, que tem muitas formas de ação e expressão, que lança tentáculos pelos quais agarra o que deseja e se esforça para mantê-lo para seu próprio prazer, que é a revolução em si mesmo.

É a ausência de egoísmo, manifestando uma compreensão dos semelhantes não baseada nas próprias reações, que dá origem ao amor no verdadeiro sentido espiritual.

Então, em vez de um império de egoísmo, estabelece-se no coração um tipo diferente de império, um de amor e compreensão.

E esse império ou estado não é estático, mas um constante florescer ou desabrochar interior.

Há nele um contínuo afloramento das águas da vida, uma fonte que assume nova forma a cada momento.

Mesmo perceber a possibilidade de tal mudança tem grande valor.

No instante em que vemos a meta, sabemos ao menos a direção em que devemos prosseguir.

Um único vislumbre dessa meta que está em si mesmo traz uma tremenda segurança e um desapego de qualquer outra coisa além dela. Não somos desencaminhados pelos conselhos da ignorância para atalhos que são todos modos de girar em torno do eu ou de auto-involução.

A revolução que deve ocorrer não é uma revolução no sentido comum, não é parcial, não é violenta.

É uma revolução que deve ocorrer em uma condição de compreensão e liberdade de conflito, e é o estabelecimento de uma ordem diferente da ordem — ou melhor, do caos — que existe em nós atualmente, uma ordem que é um estado de liberdade e dá origem a um amor que lança seus raios sobre todos, tornando o que há de divinamente belo nos outros manifesto à nossa visão.

Não estamos nessa condição atualmente.

O que devemos fazer para criar esse amor? A resposta a isso seria: Todas aquelas coisas que são da maior beleza e significância só podem ser produzidas pela Natureza, isto é, por um processo totalmente natural, não por nossa vontade ou por uma mente que é limitada e ignorante.

É a Natureza, a Mãe universal, que sabe como trazer à fruição as possibilidades que jazem latentes em toda vida, como efetuar uma mudança completa, como produzir algo absolutamente novo.

Tudo o que podemos fazer é remover os impedimentos em nós mesmos que impedem esse florescer que deve ocorrer por si só.

Um indivíduo pode ser velho, estagnado, incrustado, limitado de várias maneiras.

Pode ele tornar-se jovem de coração, renovado e completamente rejuvenescido? Como isso pode ser alcançado? Não por qualquer planejamento de sua parte ou pela vontade.

Não pode ser feito dessa maneira, porque é somente a vida, que rejuvenesce, e devemos tornar possível que essa vida flua livremente.

Como foi dito outrora, a morte é o portal para a vida — a renovação da vida.

Morte significa a morte de todos os elementos que bloqueiam a fonte da vida.

É a vida aflorando das próprias raízes eternas que rejuvenesce o indivíduo, de modo que ele se torna completamente novo em seu ser interior.

Um estado de ser no qual não há deterioração, uma condição de juventude atemporal, é possível nos planos de consciência.

O homem liberto pode ter um corpo físico que envelhece com o passar do tempo – isso é inevitável, porque o corpo muda de acordo com as leis da Natureza física – mas interiormente, em seu coração e em seu ser, em sua consciência, ele está sempre renovado e novo, sempre como a criança recém-nascida, juntamente com toda a sua sabedoria.

Não há virtude em prolongar a própria vida, mas há virtude em permanecer jovem de coração, novo, inocente, incondicionado, livre e incorruptível.

Essa é a natureza do Adepto.

Se tal mudança deve ocorrer espontaneamente, por um processo natural, com o que então estamos preocupados? "Nós" significa nossa vontade e inteligência, que podem remover os impedimentos a esse processo e libertar aquela natureza que não é suscetível a condicionamento algum, a qual chamamos de natureza espiritual.

Portanto, estamos preocupados apenas com duas coisas: primeiro, a verdade, ou melhor, a compreensão da verdade; segundo, a direção de nossa vontade para tal ação altruísta quanto for possível, o serviço que podemos prestar sem ganho algum.

Parece-me que, se a vida puder ser reduzida a esses dois elementos essenciais, se pudermos concentrar-nos neles e não tiver outros objetivos ou desejos, tudo o que puder ocorrer nesse estado de liberdade da preocupação consigo mesmo representará a verdade do nosso ser fundamental.

Compreensão não é o entendimento de abstrações ou a aquisição do conhecimento que está nas enciclopédias, mas é um entendimento de como viver, de nossas próprias mentes, dos outros, de como devemos agir, do modo como devemos olhar as coisas.

É uma compreensão que tem relação direta com todos os aspectos de nossa vida.

É somente por meio da compreensão que a vontade é transformada de vontade própria em vontade altruísta.

Frequentemente usamos a palavra "vontade", mas sua natureza é difícil de entender.

Ela é tantas vezes mal compreendida como a suposta vontade de uma pessoa dominadora e insistente.

É estúpido manter a própria posição obstinadamente contra a razão ou considerações que afetam a felicidade e o bem-estar de todos.

A vontade como ordinariamente entendida gera uma consciência de poder que intensifica o senso de separatividade e cria obstáculos no caminho da Vontade Única que está por trás de toda vida e evolução, o modo como a Vida se move quando não há compulsão.

A vontade do Espírito não é a vontade da matéria cega, da autoafirmação mecânica ou da autodefesa agressiva.

Quando compreendemos essas coisas, começamos a ver a direção na qual devemos prosseguir e a possibilidade de avançar por ela, evitando as diferentes coisas que nos desviam do caminho, tais como buscar poderes psíquicos, a exaltação da própria personalidade, status, sucesso, e assim por diante.

É preciso deixar tudo isso de lado para trilhar esse caminho do qual foi dito: "Não há outro caminho algum a seguir", porque esse caminho, que é um modo de vida, e a pessoa em sua natureza mais verdadeira são percebidos como sendo o mesmo.

O Ocultismo Teosófico significa que o homem toma a si mesmo em mãos, e não aos outros.

Annie Besant

═══════   A Regeneração Humana — N. Sri Ram ═══════

A Regeneração Humana                                            por N. Sri Ram, Tudo o que é bom, esclarecedor, que seja capaz de aliviar o sofrimento de outro e inspirá-lo com coragem, toda melhoria das condições sociais, políticas e outras é parte da evolução.

Mas devemos descobrir o que é mais digno de ser feito por nós, o que devemos especialmente almejar, porque as necessidades da humanidade são tão variadas.

Os Mestres da Sabedoria, que auxiliam a evolução, embora estejam interessados em todas as mudanças que favorecem o progresso humano, estão especialmente preocupados com a regeneração espiritual da humanidade, que é de importância fundamental.

Porque, quando isso ocorre, tudo o mais se segue.

As forças que são postas em ação na regeneração terão elas mesmas seu efeito sobre as condições externas.

Mas se as mudanças são meramente externas, depois de um tempo podem ser todas perdidas ou desfeitas.

Houve várias idades de ouro na história da humanidade, épocas em que a vida era tranquila, em que as pessoas eram felizes, bondosas e boas; mas todas elas desapareceram, e chegamos a este conflito, à presente confusão e miséria.

Podemos ver, portanto, que meramente produzir uma mudança exterior não é suficiente.

É como ensinar boas maneiras.

Tem que haver uma mudança no homem fundamentalmente.

Isto é precisamente o que Krishnamurti fala e almeja, uma certa mudança fundamental como consequência da qual todas as mudanças necessárias na organização e no comportamento ocorrerão automaticamente e com a maior facilidade possível.

Quando você vê por si mesmo o que é a verdade, você agirá de acordo com essa verdade.

Você não precisa então de nenhuma direção, exceto essa verdade.

O que os Mestres querem, além de qualquer coisa útil que possamos estar fazendo ou ser capazes de fazer, é esta regeneração, começando por nós mesmos.

A possibilidade de tal regeneração, até mesmo a predestinação dela, é talvez a verdade mais inspiradora da Teosofia.

Nas regiões onde há mudança de estações, como a Europa, uma árvore do tipo caducifólio envelhece a cada outono e perde suas folhas.

Parece que está morta no inverno, mas então renasce na primavera com nova folhagem e flores.

Este é um fenômeno que se repete.

Agora a mesma coisa acontece com relação a cada ser humano; pois morremos e renascemos como entidades físicas e psíquicas, e a cada morte a coleção de memórias anteriores pertencentes ao passado cai completamente, e voltamos frescos e puros com uma nova natureza.

Mas somos incapazes de reter essa natureza; não permanecemos limpos, frescos ou ternos como éramos quando nascemos.

Muito rapidamente somos recobertos de impressões, tornamo-nos distorcidos e coloridos de várias maneiras e deixamos de ser o que éramos na inocência e no encanto de nossa infância.

Embora o passado esteja morto, as tendências do passado voltam a surgir; elas são tão profundamente enraizadas que não morrem por muito tempo; permanecem enterradas no solo da nossa natureza.

Mesmo quando tudo na superfície morreu, elas persistem e crescem novamente.

Tornam-se ativas assim que há condições favoráveis à sua atividade.

Você pode ver uma criança encantadora, com belas possibilidades, mas depois de alguns anos, de alguma forma, todo aquele encanto se foi.

Observe o mesmo indivíduo já crescido, homem ou mulher, ou ainda mais tarde, quando o meridiano da vida foi alcançado e ultrapassado.

Ele ou ela está tão endurecido e fixo, a beleza dos primeiros anos uma mera memória, talvez dissipada, com o fenômeno da decadência escrito em letras grandes na pessoa.

Mas se o ambiente for favorável, as tendências indesejáveis podem permanecer latentes, até mesmo por toda uma vida.

Isso é compreensível a partir da nossa própria experiência com as pessoas.

Uma pessoa pode ter certos anseios ou propensões interiores, mas sem oportunidades para satisfazê-los, eles parecem inexistentes.

Na ausência de tentação, muitos de nós certamente podemos ser virtuosos.

As tendências repousam como lama no fundo de um rio.

A água flui sobre a lama, limpa e utilizável, mas quando há uma ventania, inundação ou alguma outra perturbação, ela se torna lamacenta imediatamente, carregada de todas as impurezas que até então jaziam quietas no leito do rio.

Em nossa vida moderna, onde tudo está sendo agitado em alto grau, não falta oportunidade para que qualquer tendência latente seja despertada.

O mais leve sopro de uma influência parece às vezes suficiente para colocá-la em ação, assim como um leve odor de bebida alcoólica é suficiente para reavivar o desejo de um alcoólatra.

Nestes dias, por causa de tanto movimento, tanta coisa acontecendo, que afeta as pessoas de diferentes maneiras, tantos pensamentos, atividades e distrações, as influências são muito mais misturadas do que jamais foram antes.

Portanto, a deterioração se instala ainda mais rapidamente; o encanto, a frescura e a inocência que poderiam durar mais tempo sob condições mais naturais tendem a se desgastar logo.

Mas chega um momento na longa série de vidas — não vem por si só, porque a inteligência e a vontade humanas estão envolvidas no processo — em que a alma é capaz de se livrar completamente dos efeitos do passado; ela se desfaz de sua acumulação de uma vez por todas e se destaca em sua própria natureza pura.

Pode-se perguntar: e quanto às capacidades que foram desenvolvidas? As capacidades permanecem porque pertencem não à natureza exterior, mas à alma.

A mera acumulação de experiência não é uma bênção sem mistura.

Quando as pessoas dizem que precisam ter experiência, a experiência que buscam é em si uma coisa boa? A busca de experiência pode significar dissipação; geralmente endurece um indivíduo e produz complexidades.

Mas no próprio processo de acumular experiência, de ganhar dinheiro, por exemplo, certas capacidades são desenvolvidas.

Aprendemos a lidar com as diferenças do mundo material com uma mente que se torna gradualmente afiada como um florete e completa em seus movimentos.

Essas capacidades, em si mesmas, pertencem à natureza pura da alma.

Se pensarmos na alma como ser puro, ativa com uma consciência pura, o que eclipsa sua natureza, a suprime, é a distorção pela qual essa consciência passa.

Há alguma distorção em cada um de nós, mas nos tornamos tão acostumados a ela que não temos consciência de que ela existe.

Pensamos que somos naturais quando somos não naturais; chegamos até a acreditar que somos artificiais.

É essa consciência distorcida, que assume certa forma, age de certa maneira específica, em cada caso, que chamamos de nossa mente.

É somente alcançando um conhecimento de quaisquer distorções que existam, quaisquer ilusões, que podemos nos tornar livres delas.

Então a consciência recupera seu estado natural por causa de uma elasticidade extraordinária inata em sua natureza.

Ela então alcança uma perícia e uma facilidade, das quais não temos nenhuma ideia no presente.

Voltando à analogia de uma planta, o homem espiritual é uma planta que brotou fresca de sua raiz, mas sem quaisquer elementos deteriorantes.

Tudo da natureza exterior, exceto as capacidades desenvolvidas, caiu.

Ele é um homem novo renascido em espírito.

Ele é uma planta cuja natureza inteira é agora irradiada com a essência de suas raízes incorruptíveis.

As raízes do nosso ser são sempre imarcescíveis.

Elas estão naquela parte espiritual mais profunda de nós mesmos, que é intocada pela experiência que sofremos no lado superficial de nós mesmos.

Mas se pensarmos na mente ou na consciência que brota dessas raízes, ela pode ser tanto espiritual quanto material.

A mente tem uma natureza dual.

Em sânscrito, a mente que lida com as diferenças da matéria (e é afetada por elas) é denominada Manas.

É essa mente que pensa em termos de diferenças e estabelece as relações do pensamento.

Mas a mente que conhece a unidade e a experiencia é denominada Buddhi.

Esses são dois termos mantidos separados na filosofia sânscrita.

Há uma parte do Manas que é una com o Buddhi, e essa é a parte mais espiritual, distinguida de seu complemento material.

Eles são essencialmente unos, mas separados na manifestação e até mesmo opostos um ao outro quando o último está sob o domínio das sensações da matéria e dos desejos que essas sensações geram através da memória.

É realmente o desejo em toda forma que causa nossos problemas.

Se desejo algo e estou decidido a obtê-lo, e alguém me impede, irrompo em ressentimento.

Do desejo nasce a ira, como diz o Bhagavad Gita.

É o desejo por posição, poder ou prazer de qualquer tipo que nos torna egocêntricos e indiferentes aos outros.

Absorvidos em sua busca, não temos atenção ou consideração para dar a ninguém ou a nada mais.

É somente quando uma fraqueza particular se mostra de forma exagerada que geralmente percebemos sua verdadeira natureza.

Enquanto é de pequena magnitude e não se manifesta com força, nós nos desculpamos dizendo que é uma trivialidade, um mal comum, é humano ser assim. Não tratamos o veneno como veneno até que se torne perigoso.

É a influência de nossos desejos e esperanças sobre nossa maneira de ver as coisas que é a causa de tantas ilusões, porque se você deseja algo intensamente, torna-se disposto a aceitar as condições para sua satisfação.

Fundamentalmente, o problema reside em nosso apego às experiências que tivemos no passado.

Quando esse apego se torna ativo, nós o chamamos de desejo, mas mesmo quando não está ativo, o apego permanece.

Se eu fui viciado em bebida, e mesmo que no momento presente eu não sinta o anseio, o anseio ainda está lá.

Ele erguerá a cabeça muito em breve, porque há um período de ativação que tem de alternar com um período de repouso devido às mudanças corporais.

Isso precisa ser profundamente compreendido e realizado.

A compreensão necessária não é apenas uma compreensão mental, que é superficial.

Tal compreensão não muda a vontade porque está cheia de reservas mentais.

Quando realizamos uma verdade por nós mesmos, completa e livremente, a verdade então nos liberta dos erros e superstições que florescem em sua ausência.

Nenhum de nós é tão livre quanto imaginamos ser; pensamos que somos livres quando temos uma espécie de liberdade exterior superficial.

Mas do ponto de vista interior, temos apenas liberdade para perder nossa liberdade, o que fazemos rapidamente.

Quando há liberdade, por fim, para Manas, que é a inteligência que lida com as diferenças da matéria, ela se une a Buddhi, na qual reside um conhecimento da unidade, e que é sua verdadeira contraparte.

A natureza espiritual superior que pertence a Buddhi manifesta-se então no campo de Manas, e é para esta última um renascimento da matéria para o Espírito.

Esta é uma mudança de vasta significação, que tem de ocorrer em cada indivíduo.

A mente, tendo se libertado completamente das influências às quais estava anteriormente sujeita, atinge um estado no qual não é afetada pelas condições mutáveis da matéria.

Ela não é afetada, mas ao mesmo tempo é extraordinariamente rápida em suas percepções e movimentos.

Ela não perde sua sensibilidade; pelo contrário, torna-se mil vezes mais impressionável do que antes.

Está viva a cada mudança, sente cada impacto, é capaz de se entregar completamente a cada fenômeno da vida que surge.

Normalmente, quando fazemos algo, ouvimos música, por exemplo, não ouvimos com toda a nossa capacidade, tornando-nos completamente vazios e negativos, de modo a absorver cada nota e perceber o significado dessa nota na relação das notas.

Encontramos a vida, quase todos os fenômenos da vida, com apenas uma pequena porção de nós mesmos.

Se imaginarmos um indivíduo como uma esfera de ser, que é tanto capacidade quanto sensibilidade, é apenas um segmento dela com o qual encontramos o mundo no qual vivemos e nos movemos.

Mas quando a consciência se torna livre das imagens fixas com as quais está obstruída, dos padrões fixos de seu pensamento e sentimento, ela se torna completamente elástica, então é capaz, a cada momento do tempo, de se entregar totalmente à experiência daquele momento.

Ela é móvel e responsiva em todos os sentidos; contudo, junto com essa mobilidade e responsividade, é capaz de permanecer não afetada pelas flutuações das condições externas, pelo 'calor e frio, honra e desonra, sucesso e fracasso', para usar a linguagem do Bhagavad Gita.

Essas coisas apenas vêm e vão, como ondulações na superfície da água.

A consciência meramente reflete as mudanças, registra-as, compreende-as, e elas passam.

Ela é sensível e tranquila ao mesmo tempo, um belo estado para se estar. Não seria correto pensar que, por um Yogi ser sensível, ele deva ser facilmente perturbado; porque ele é aberto, ele deva ser afetado por toda influência.

Ele é aberto, mas não perturbado.

Sua consciência é como um oceano de calma sensível, que envolve tudo, mas não se mistura com nada.

O alfabeto da vida espiritual O que estamos aprendendo é meramente o alfabeto da vida espiritual.

Devemos aprender, por exemplo, a estar conscientes de como estamos vivendo.

Então chega um momento em que, no instante em que pensamos algo, dizemos algo ou formamos um julgamento baseado em nossas reações pessoais, contrário ao propósito inteiro de nossa vida como o compreendemos, percebemos que a nota errada foi tocada.

O estado ao qual devemos visar é uma consciência de tudo o que estamos fazendo; o que não significa que devamos nos tornar altamente autocentrados, absortos em nossos próprios pensamentos e sentimentos.

Pois isso também se tornaria um obstáculo.

Mas no momento em que a nota errada é tocada, deve haver um sentimento de que aquela nota não pertence à música do nosso ser.

Isso seria realmente a perfeição do autoconhecimento.

Mas temos que começar em algum lugar; não podemos alcançar imediatamente essa perfeição.

Não creio que qualquer um de nós possa fazê-lo, a menos que, é claro, já tenha se preparado.

Portanto, fazemos um certo começo com disciplina na vida diária, incluindo alguma meditação, estudo e assim por diante. Quando há autoconsciência, não imaginamos que fazemos mais do que apenas começar um novo tipo de vida.

Mas conhecer o caminho pelo qual devemos seguir e ser humilde é uma grande coisa.

Uma contradição fundamental em nós mesmos está entre o eu e o ideal com o qual ele busca se revestir.

Temos que nos tornar conscientes da contradição.

Quando realmente compreendemos o problema, quão completa é a natureza da mudança que é necessária, deixamos de ser impacientes.

Não importa quanto tempo leve, sabemos a direção e devemos segui-la; haverá muitos problemas e podemos enfrentá-los.

Nossa impaciência é realmente nascida da ambição; é uma condição de febre, que surge porque queremos 'chegar lá', em vez de compreender os problemas com os quais devemos lidar.

A atitude que devemos adotar é a de aceitar as coisas como elas são e fazer o melhor com elas, lidando com a situação no mundo exterior e com a situação em nós mesmos.

Devemos fazer o que pudermos a cada momento e passar tranquilamente para o próximo.

Mesmo aquém da mudança fundamental que precisa ser realizada, pode haver uma humanidade regenerada, no sentido de uma humanidade redimida pela sua natureza superior.

Há o bem e há o mal em todos nós e, como já foi mencionado, sob condições favoráveis, a natureza superior prevalecerá.

A humanidade pode ser ajudada a ver o que é certo e o que é verdadeiro; isso faz parte do nosso trabalho.

Pode ser que ainda não possamos fazer tudo o que um dia nos será possível, mas podemos ajudar nossos semelhantes na medida da nossa capacidade.

Podemos fazer isso através dos ensinamentos da Teosofia e pelo nosso próprio exemplo.

Se começarmos de forma modesta, descobriremos que somos capazes de fazer cada vez mais.

Isso é algo extraordinário de se constatar e descobrir por si mesmo.

Você começa a dar afeto àqueles ao seu redor, e descobrirá que há mais afeto para dar; começa a servir de alguma forma, e descobrirá que há maneiras pelas quais pode servir melhor.

Há uma infinitude em cada um de nós da qual podemos extrair para dar, e temos que descobrir essa infinitude por nós mesmos através do dar, e não há outro caminho.

Se você se sentar numa cadeira e disser: agora vou descobrir a infinitude dentro de mim, nunca a descobrirá. É somente fazendo a corrente fluir que mais pode ser feito para fluir.

Foi dito por um dos Grandes: Esquece-te de ti mesmo apenas para lembrar do bem dos outros.

Não podemos ter conselho melhor do que esse.

Mas como esquecer a nós mesmos? Todos nós estamos tão preocupados conosco, com o que queremos, com o que almejamos, com a posição que deveríamos ocupar, com a estima que os outros deveriam ter por nós, com o que podemos perder, com tantas coisas, tantos pensamentos e interesses, centrados no que chamamos de "nós mesmos". Se pudermos esquecer a nós mesmos, descobriremos que nosso progresso se tornará fácil, ocorrerá rápida e naturalmente, porque então se tornará um processo de desdobramento de dentro para fora.

Então seremos capazes de realizar a verdade do ditado em Luz no Caminho: "Cresce como cresce a flor, inconscientemente", mas aberto a tudo o que é bom, verdadeiro e belo.

Podemos ter a mais perfeita certeza quanto à nossa meta e ao nosso progresso.

Por que deveríamos nos preocupar com o nosso progresso? Ele ocorre por si mesmo.

Nossa única preocupação é com como devemos viver e o que devemos fazer agora.

Concentre-se em qualquer coisa na vida, exceto em si mesmo e em suas vontades, na Verdade, nos Mestres, na ajuda a ser dada, na compreensão daqueles ao seu redor; você descobrirá que aquilo em que se concentra, sem trazer a si mesmo para isso, adquire um certo significado profundo.

É a obsessão consigo mesmo que é o maior impedimento.

O problema da mentira espiritual consiste nessa abolição do eu, em viver nossa mentira sem pensar demasiadamente em nós mesmos, em fazer o que podemos para ajudar os outros.

═══════   A Modificação da Mente — N. Sri Ram ═══════

MODIFICAÇÕES DA MENTE                                               por N. Sri Ram

Palestra proferida na Convenção Australiana em Broken Bay, em abril

Cada homem é um corpo contínuo de consciência com um revestimento de matéria que, numa visão simples, é seu corpo físico.

Chamo-o de corpo de consciência porque possui seus conteúdos numa forma particular que varia para cada indivíduo, e este é um corpo contínuo, sendo modificado a cada instante parcialmente, mas nunca totalmente, até ser dissolvido pela morte.

Essa entidade de consciência, obviamente, é consciente em diferentes níveis, não apenas no nível físico, mas também emocionalmente, mentalmente e talvez de outras maneiras.

Fisicamente, a característica da consciência é a sensibilidade — o registro de sensações que ocorre através dos diferentes órgãos dos sentidos.

Estou consciente de que estou sentado sobre um pedaço de madeira, de que estou entre árvores, de que estou cercado por pessoas.

Todos esses objetos, à medida que me afetam, eu os conheço através de diferentes sensações, que são todas formas de conhecer ou de consciência.

Você está consciente de que o chão é duro, de que outra coisa é macia, de que o céu é azul, de que as árvores são verdes e amarelas, e assim por diante. Agora, você verá que, se excluir todo pensamento intruso, a consciência consiste em estar consciente — você simplesmente sabe, isso é tudo, o que há para ser conhecido.

Isso soa como um truísmo terrível, mas se focarmos a atenção nessa verdade, talvez possamos aprender muito com ela.

Como eu disse, estou consciente de todas as coisas ao meu redor, dos vários rostos, suas expressões, e essa consciência do que está diante de mim não exige esforço.

Não preciso exercer minha vontade para me tornar consciente.

É como abrir meus olhos, então vejo.

Quando estou apenas consciente, não há atividade de pensamento, nenhum jogo de atração ou repulsão.

A palavra a usar com relação a esse estado é "percepção". Certas coisas existem como fatos, estou ciente delas.

Essa condição é puramente negativa, isto é, se não houver perturbação pela atividade do pensamento, nenhuma interjeição de diferentes tipos, como "quero isto, não quero aquilo", e assim por diante.

COMO UM ESPELHO

Essa negatividade é como um espelho no qual os objetos presentes são refletidos.

Você ergue o espelho — esse é o espelho da própria percepção, da consciência — e quaisquer que sejam os objetos, eles são refletidos nele. O espelho não precisa decidir refletir, não tem escolha.

Se você colocar um espelho grande o bastante, toda a cena será refletida nele.

Essa negatividade da consciência é pura sensibilidade.

A palavra negativa é frequentemente usada num sentido depreciativo: o positivo é o bom, o útil; o negativo é o mau, o obstruidor.

Mas estou usando a palavra negatividade em um sentido científico.

Não é inércia, não é vacuidade ou vagueza, mas é sensibilidade, e essa é a natureza essencial da consciência.

Comparei a percepção a um espelho e disse que o espelho não tem escolha.

Mas nós temos escolha, ou a consciência tem escolha.

Posso prestar atenção ou não prestar atenção.

Posso estar na frente, posso me retirar.

Posso estar consciente, posso afundar na inconsciência.

Portanto, há o jogo da vontade, obviamente, até esse ponto.

Posso abrir os olhos, posso fechá-los.

O que decidiu essa escolha é a vontade ou o desejo.

Ordinariamente, o que chamamos de vontade contém fatores de desejo.

"É minha vontade", dizemos; somos obstinados, insistentes, afirmamo-nos.

Por que fazemos tudo isso? Porque há por trás disso algo que queremos, algo que desejamos, ou que não gostamos.

Quase sempre há elementos de desejo no que escolhemos chamar de vontade.

O fator da vontade é muito diferente da natureza da sensibilidade.

Quando você usa sua vontade, a vontade é positiva, ela age, decide, enquanto a percepção é negativa, é puramente receptiva.

Essa é uma diferença importante.

Na verdade, vontade e sensibilidade são complementares entre si.

O FATOR DA VONTADE

Na constituição do ser humano há uma natureza de sensibilidade que é passiva, receptiva, mas registra tudo de uma maneira mais extraordinária, e há a vontade que sai, que determina, que age a cada instante de uma maneira particular, e produz uma mudança na condição da consciência.

Essa vontade entra, como mostrarei em seguida, em toda atividade da consciência.

Quando digo atividade, estou distinguindo-a da mera receptividade que é passiva, que é como um espelho.

Na verdade, a sensibilidade e a vontade são complementares, assim como o círculo e o raio.

Estou introduzindo essa simile porque vocês verão em seguida que ela é elucidativa. O círculo é uma extensão, seja qual for seu tamanho.

A consciência também é uma extensão, ela cobre um campo, grande ou pequeno.

Neste momento, se estou suficientemente desperto, minha consciência pode captar tudo o que está diante dela, exatamente como se fosse uma chapa fotográfica, que reflete tudo, incluindo os objetos mais minúsculos, com absoluta objetividade.

Mas quando falamos do raio, é apenas uma linha única que é direcionada a um certo ponto na circunferência.

É claro, se o círculo pode se tornar menor ou maior de acordo com as necessidades, esse raio, embora direcionado a apenas um ponto dentro do plano do círculo em mudança num momento particular, pode cobrir todos os pontos mudando sua direção.

Há uma pequena mancha de grama marrom ali, minha atenção está direcionada a ela. A relação da minha consciência com aquele ponto particular faz um raio.

A atenção está apontada para aquele pedaço e exclui todo o resto.

Ela está indo em uma direção.

Mas a atenção pode mudar daquela direção para outra.

Posso apontar para uma coisa dentro do círculo em um certo momento.

No momento seguinte, pode deslocar-se para outro ponto, e daí para outro.

É como se o raio constituísse a direção, e a direção fosse movida sob a ação da vontade.

Quando estou ciente de algo espalhado no espaço, esta cena ou instância — o céu, as árvores, a água, as colinas, o chão, todos nós aqui — podemos considerar o todo como uma espécie de mapa, como algo espalhado.

Estou ciente de que existe o todo, e também estou ciente de que existem diferentes partes, tantas folhas de grama, tantas folhas caídas, as cadeiras, pessoas sentadas, e assim por diante.

Portanto, a percepção inclui a consciência de que existe o todo e de que existem as várias partes.

Quando percebo dessa maneira, posso querer voltar minha atenção para uma parte particular, um objeto, e não incluir outros objetos em minha percepção.

A consciência é algo muito administrável.

Você pode expandi-la, pode contraí-la. Pode excluir, pode incluir.

Posso concentrar-me em um ponto, digamos um rosto particular nesta plateia, ou apenas uma cor.

Ao fazer isso, é o ator da vontade que opera.

Posso mover a atenção daquele ponto para outro, e isso também se dá pela vontade.

É como se o raio de que falei fosse um raio de luz, que incide primeiro sobre um ponto e depois sobre outro.

A natureza da ação da vontade é causar um movimento, uma mudança.

O dardejar do raio, que é uma atividade no campo da consciência, pode ser extremamente rápido e cobrir muitos pontos.

É algo semelhante ao que ocorre na televisão.

Você pensa que está olhando para uma imagem.

O fato é que os pontos dessa imagem são iluminados por uma linha de luz, mas essa linha se move com uma rapidez tão extraordinária que você é incapaz de perceber os intervalos de tempo e, portanto, o todo aparece como imagem.

O mesmo acontece nos processos do pensamento.

PROCESSO DO PENSAMENTO

Quando você examina o processo do pensamento, que é uma atividade positiva, não uma sensibilidade negativa, a vontade está agindo o tempo todo.

A atividade consiste em uma série de passos.

Cada passo tem de ser iniciado por um impulso, por mais rápido e fácil que seja, e o que é impulso no campo físico é vontade ou a força da inclinação no campo da consciência.

No processo do pensamento, embora você possa não estar ciente desse fato, há essa vontade agindo o tempo todo, deslocando-se de uma imagem para outra.

Ela age entre as imagens na consciência, na memória.

Se não houvesse memória, você não poderia pensar, porque não haveria campo sobre o qual esse raio, essa linha de luz, pudesse atuar.

A consciência é algo tão extraordinário.

Em sua natureza essencial, é como um negativo fotográfico, receptivo a impressões.

O astrônomo moderno percebe muitas coisas por meio de seu negativo, que é tão sensível que registra objetos no espaço minúsculos demais para nossos olhos.

A consciência retém as impressões que recebe, em um certo aspecto dela, indefinidamente.

Você recebe várias impressões no curso da sua vida; todas são registradas na consciência.

Você pode dizer: "não esquecemos?" É bem sabido que o cérebro, a mente subconsciente, registra muitas coisas que você não nota, que você não percebe, mas é possível, aplicando-se certo estímulo, evocar a imagem, assim como quando você toca um disco de gramofone e as velhas canções são reproduzidas.

As imagens, as impressões que foram formadas, que permaneceram abaixo do nível da mente consciente, podem ser trazidas à tona dos recessos do cérebro por um processo puramente mecânico.

Mas não estou falando do cérebro; estou falando da consciência.

Essas impressões, quando formadas no cérebro, podem continuar apenas por um certo período de tempo, porque o cérebro é matéria, e tudo o que é formado com base na matéria deve chegar a um fim.

Mas a consciência não é da natureza da matéria, como a conhecemos, e há um certo aspecto dela onde o que é registrado com a maior minúcia é retido indefinidamente.

Isso é o que se chama Akasha.

As impressões do passado constituem a memória do indivíduo.

IMAGENS QUE SE DESLOCAM APARENTEMENTE

Quando dizemos memória, não é apenas a memória de ontem, do ano anterior, e assim por diante.

É também a memória do que foi impresso no segundo anterior.

Mesmo isso está na sombra da memória.

O lápis de luz move-se no campo dessas imagens no processo do pensamento.

Ele age como se deslocasse essas imagens para diferentes posições relativas umas às outras.

Digo "como se"; porque não acho que ele realmente desloque as imagens, mas ele desloca a si mesmo e, portanto, parece que as imagens são deslocadas, mas isso é entrar em uma sutileza ainda maior.

Este é um assunto vasto, tão intrincado, tão, tão sutil; tudo o que podemos fazer é tentar compreender.

Nosso entendimento dessas questões é muito imperfeito, e deve haver uma quantidade enorme de coisas a mais para saber.

Quando as imagens no campo da memória são deslocadas, surgem diferentes relações entre elas, e a consciência, em seus aspectos de sensibilidade, nota essas relações.

Por exemplo, a distância entre dois objetos é tanto; colocada ao lado de outra linha, parece mais curta, e assim por diante. Isso é realmente a atividade do pensamento, do raciocínio, da lógica e da inferência.

Diferentes elementos estão presentes na consciência, diferentes sensações, diferentes cores, diferentes experiências, diferentes formas.

Todos esses são organizados de várias maneiras, como se fossem movidos, e então são constituídos em imagens, figuras, estruturas, edifícios, e isso é o que chamamos de imaginação ou criação de imagens.

Toda a atividade é extraordinária.

Esse lápis de luz move-se e gira sobre si mesmo de tal maneira que, por sua própria atividade, parece mover todo o campo, todas as imagens nele, para novas relações, para novos edifícios.

Essa atividade ocorre com velocidade relâmpago em nosso pensamento comum.

É claro que a velocidade do relâmpago pode ser medida, mas isto não pode ser medido, pode ser instantâneo.

Embora não tenhamos consciência disso, esta atividade está ocorrendo em nós o tempo todo.

A vontade é ordinariamente considerada parte da mente, mas estou fazendo uma distinção, que creio ser muito necessária, entre sensibilidade, vontade e sentimentos, que também são considerados parte da mente.

O sentimento, quando está sentindo a natureza de algo, como quando você sente com a mão a textura de um tecido, é uma forma de sensibilidade — é o aspecto negativo da consciência.

Mas usamos a palavra "sentimento" também para incluir reações pessoais.

Assim, ela tem significados diferentes.

Sinto a agradabilidade do ar, sinto a clareza da atmosfera, e também sinto certa repulsão ou uma reação de medo.

Quando você sente a natureza de uma coisa, você está ciente de algo que existe.

COMPLICAÇÕES DO APEGO

Agora chegamos a certas complicações que surgem devido a outro fator, que é o apego ou desejo.

Consciência literalmente implica experienciar tudo o que é, tudo o que existe.

Ela assim registra os atos de prazer e dor.

Toco algo quente, há uma sensação de dor.

Provo algo agradável, há uma sensação de prazer.

Estas são sensações, formas de conhecimento, mas em vez de meramente registrá-las, a consciência se apega a certas sensações e repele outras.

Isto é, é claro, bem conhecido de nós. A repulsão é também um tipo de fixação que é apego, então poderíamos chamar todo o fenômeno, incluindo toda forma de repulsão, de fenômeno do apego.

Quando dizemos apegado, o que está apegado a quê? É o apego da consciência em sua natureza inerentemente incolor ou cristalina à sensação que é uma experiência de algo particular.

O açúcar é doce.

A consciência, que em si mesma é incolor, está apegada àquela sensação que é doce, mas essa sensação é também uma forma de consciência.

Assim, aquilo que em si é sem forma se apega a algo particular que tem forma.

De qualquer modo, assim parece. Não vemos essas coisas com clareza suficiente, primeiro porque não prestamos atenção; segundo, porque nossas mentes não são rápidas o bastante nem livres o bastante para penetrar nessas várias nuances de mudanças na consciência e nas transações entre nossas mentes e o mundo exterior.

O apego é automático.

Você tem uma lata de nozes, coloca uma na boca e a morde, obtém uma sensação agradável.

Sem que você saiba — você pode estar absorto num livro — a consciência se apega àquela sensação.

Do apego surge o desejo, que motiva a vontade a colocar seus dedos naquela lata e colocar outra noz em sua boca.

Assim continua, e quando você termina metade do seu livro, pode ter terminado metade das nozes.

A ação é automática quando você não presta atenção a ela, mas quando sua atenção é uma vez chamada para ela, você começa a pensar: "Devo continuar comendo? Talvez eu deva parar". Isso quebra a continuidade.

Esse automatismo continua enquanto houver inconsciência.

Enquanto estivermos inconscientes de nós mesmos, continuaremos a agir como se fosse uma máquina que age, e não uma inteligência livre.

O que realmente acontece é: forma-se um apego, depois outro, que se liga ao primeiro por associação, então há um terceiro e, por fim, todo um sistema de apegos estabelecido em nossa natureza.

Esse sistema é como uma máquina; é como se várias hastes estivessem conectadas umas às outras, de modo que, quando você move uma haste, há um movimento em todas as outras hastes do sistema.

O centro desse sistema é o "eu". Tem de haver um centro de movimento, um pivô sobre o qual a coisa toda gira, um ponto no qual cada força incide e novas direções de movimento são causadas.

A fórmula que resume suas atividades variadas é "eu quero". O querer é a ação que brota do apego; "eu" é o sujeito que é o ego ou o eu (no sentido comum). É somente enquanto há o querer que há o "eu". Um apego deve ter duas extremidades.

A extremidade mais distante é o objeto que é perseguido, que proporciona a sensação; esta extremidade é o "eu", o centro aparentemente permanente.

A fórmula funciona em formas variadas: "eu gosto de comida", "eu gosto de bajulação", "eu gosto de importância", e tantas outras coisas.

Talvez "gostar" não seja a palavra certa; "querer" é melhor, porque você pode gostar de uma coisa, registrar sua agradabilidade, e ainda assim não pedi-la.

Há apego em nossas vidas, em algum grau, a cada experiência que se impregnou em nós.

Cada apego é como um fio no campo da consciência, lançado a um ponto particular, uma imagem particular, uma sensação particular.

Quando esse fio — chamemo-lo de filamento — é galvanizado, quando uma certa corrente percorre-o, então há uma atração, e essa atração é o desejo.

O apego é a forma passiva do desejo, e há inúmeros fios na natureza de alguém que são puxados em direções diferentes.

Eu disse que mesmo a repulsa pode ser considerada uma forma de apego, pois você está ligado àquilo que repele, à pessoa que odeia, à imagem que teme.

Seja ódio ou medo, ganância, ambição ou desejo, o fio, a tensão, está ali.

Essas atrações são de intensidade variada e frequentemente não notadas; elas agem de maneiras tortuosas.

Estamos tão identificados com essa condição que somos incapazes de perceber o que está acontecendo.

Quando estamos identificados com uma coisa, ficamos inconscientes dela. Eu sento nesta cadeira.

Se esta cadeira fosse perfeitamente confortável e eu me ajustasse perfeitamente a ela, descobriria que, depois de um tempo, estaria inteiramente alheio à sua existência.

O que quer que você esteja completamente identificado ou ajustado não é um objeto de conhecimento; você, o sujeito, não presta atenção a ele.

UM CAMPO DISTORCIDO

Quando esses fios tão emaranhados puxam de maneiras diversas, todo o campo da consciência, o contínuo, fica distorcido, amassado, tornado inteiramente irregular.

Isso é o que acontece conosco, em algum grau, e é isso que somos, embora possamos não perceber. Quando é deformado pelas tensões, pressões e estresses, deixa de ser um espelho fiel.

Chamei-o de espelho no qual as coisas são refletidas como são; é isso que ele deveria ser, mas quando deixa de ser fiel, mostra imagens distorcidas.

Você pode dizer: "Não, eu vejo esta árvore perfeitamente, não há distorção na minha consciência." Sim, em relação à árvore; há essa dose de fidelidade em nós. Se não víssemos a árvore como árvore e a imaginássemos como uma onda no oceano, então, é claro, não poderíamos viver neste mundo.

Vemos as coisas como elas são, mas apenas até esse ponto.

Mas o espelho mostra imagens distorcidas dos caracteres e motivos das pessoas, das situações, de tudo o que ocorre no campo da consciência, embora não das coisas do mundo físico, que são inexoravelmente objetivas e não podem ser manipuladas impunemente.

Ele não é mais um negativo fotográfico limpo.

Tantas impressões choveram sobre ele. É claro que ele foi feito para receber impressões, mas elas não apenas choveram sobre ele, mas ficaram aderidas; devido ao processo de aderência, ele agora está recoberto por uma espessa sombra do que é em sua natureza essencial pura.

Não conhecemos a natureza essencial pura da consciência, na qual podemos dizer que estamos enraizados, porque nos tornamos tão modificados.

Você pode ter água límpida e fluente, mas se a água se mistura com muita lama e coisas assim, e finalmente congela, e se esse bloco congelado se fissura em vários pontos, veríamos pedaços de gelo duro em várias formas, misturados com matéria estranha; já não é a água cristalina e clara que flui belamente, suave e nivelada.

COMO DESFAZER-SE

Se nos tornamos algo diferente do que éramos originalmente e do que poderíamos ter continuado a ser, pode tudo isso ser desfeito? Como podemos recuperar aquela natureza na qual pode haver o sentimento de liberdade suprema com sua sensibilidade inerente? Isso só pode ser desfeito por meio da compreensão de toda a condição e do processo — por meio do autoconhecimento, da percepção, da compreensão.

Percepção é registrar o que ocorre em sua objetividade.

Compreensão inclui perceber o significado de tudo o que ocorre.

Autoconhecimento é voltar a atenção para os processos que constituem o eu e conhecer a natureza desse eu constituído.

Não podemos saber o que a liberdade significa até então, nem a sensibilidade extraordinária que a acompanha.

O fato é (falo, é claro, com hesitação) que a consciência é a própria sensibilidade.

Quando dizemos que a consciência é sensível, há certa redundância nessas palavras.

A consciência modificada, como a encontramos em nós mesmos, pode ter certo grau de sensibilidade.

Dessa consciência é permitido dizer que é menos sensível, mais sensível, sensível a isto, não àquilo.

Mas quando pensamos na consciência em sua natureza essencial, a própria substância dela, então ela é em si mesma sensibilidade, não há distinção a ser feita entre as duas.

Em sua própria natureza, que, como eu disse, é sem forma e, portanto, não limitada pelo espaço, e capaz de onipresença, ela é sensibilidade a tudo o que existe e acontece neste universo extraordinário.

Quando digo tudo o que existe, não quero dizer meramente átomos, partículas, objetos concretos, mas também todo o reino do pensamento, do sentimento, do significado e da beleza.

Pode haver sensibilidade a sentimentos, a expressões no rosto de algo ou de alguém, à proporção, à harmonia que pode existir em inúmeras formas, a todo o universo em seus aspectos subjetivo e objetivo.

Objetivo significa aquilo que você vê fora de si mesmo; subjetivo significa aquilo que você pode experimentar apenas dentro de si mesmo, na natureza da própria consciência — o espiritual e o psíquico.

Há a possibilidade de conhecer tudo isso, de responder a tudo isso, de experimentar tudo isso.

Embora não conheçamos isso por nós mesmos, ainda assim é uma ideia iluminadora, lógica e satisfatória para o senso de adequação e completude de ninguém.

Usei as palavras espiritual e psíquico; sabemos o que é espiritual apenas experimentando-o. Podemos conhecê-lo não como algo separado de nossa consciência, mas como uno com ela. O que chamamos de Espírito, distinto da Matéria, é uma natureza, ou é um poder, ou é um princípio? É a beleza que é experimentada naqueles movimentos da consciência, infinitos que possam ser, que podem ocorrer sem modificar sua natureza inerente? Talvez seja tudo isso, não sabemos.

Por ser tão subjetivo, tem de ser uma questão de descoberta por cada um individualmente; para nós, é o desconhecido.

Tem sido falado em vários termos.

Podemos considerar a consciência e também a vida como surgindo da relação entre Espírito e Matéria, caso em que devemos considerar a consciência como aproximando-se do Espírito, mas como condicionada, definida e limitada pela Matéria.

A Matéria é o meio de expressão.

O Espírito é algo cuja natureza ou ação está sendo expressa através de formas apropriadas.

A experiência dessa natureza ou ação também é verdade.

Em última análise, consciência e Espírito são um, porque a consciência então se identifica com o Espírito, não com a matéria.

Quando dizemos que Consciência e Espírito são um, a imagem que é evocada é de unidade, mas pode ser também uma infinitude, desconhecida para nós. Estamos usando termos com significados, nos quais só podemos perscrutar "como em um espelho, confusamente".

═══════   O Campo Aberto do Terceiro Objetivo — N. Sri Ram ═══════

THE OPEN FIELD OF THE THIRD OBJECT                                                N. Sri Ram

O TERCEIRO Objetivo da Sociedade reza: "Investigar as leis inexplicadas da Natureza e os poderes latentes no homem". Em primeiro lugar, a palavra "inexplicadas" é a palavra certa nessa frase? Não deveria ser realmente "indescobertas"? A palavra "inexplicadas" implica que já identificamos as leis, percebemos sua existência, mas elas não foram explicadas devido a alguma obscuridade nelas ou devido à sua natureza complexa ou complicada, enquanto a palavra "indescobertas" implicaria apenas a presunção de que há leis desconhecidas para nós no presente.

O campo do Terceiro Objetivo sugere uma extensão aberta, aberta à exploração, e pode ser concebido como incluindo tudo o que é incomum ou aparentemente milagroso, tais como os fenômenos que H.P. Blavatsky realizou em sua época.

Em sua primeira obra, Ísis sem Véu, ela percorre um vasto campo cobrindo quase tudo o que estava fora do comum, ou inexplicado naquela época: clarividência de vários tipos, deixar o corpo à vontade e viajar à distância, feitos de levitação, psicometria, leitura dos mistérios do passado, intercâmbio com os mortos e outras entidades não físicas, materializações, a passagem da matéria através da matéria, e assim por diante.

Talvez possamos incluir em tais estudos até mesmo a lógica da astrologia, não a arte da astrologia ou a prática dela, mas antes toda a teoria que subjaz ao significado dos signos zodiacais e dos planetas, suas posições e relações, a atribuição a eles de certas influências sobre nossas vidas e os eventos que ocorrem.

Tudo isso está além do que podemos ver diretamente ou por nós mesmos, mas embora possa ser interessante como questão de estudo, não pode, creio eu, realmente enquadrar-se na descrição da Teosofia como a Sabedoria Divina.

Não devemos confundir conhecimento, mesmo do lado oculto da Natureza, com a Sabedoria que brota das profundezas de uma certa natureza em nós mesmos.

Seria certamente de interesse e útil saber como a gravitação pode ser revertida.

Parece que há cientistas tanto nos Estados Unidos quanto na Rússia que estão trabalhando exatamente nessa questão.

Mas mesmo que alguém descubra esse segredo, isso não o tornaria necessariamente sábio em qualquer sentido real.

Embora o Terceiro Objetivo fale de leis e poderes, muito do trabalho realizado através desses poderes é uma descrição.

Por exemplo, a literatura concernente aos planos astral e mental, ao corpo etérico, aos chakras, e assim por diante, lê-se como a descrição de alguma região extraordinária e das atividades que ali ocorrem.

Diz-se às vezes que não damos muita atenção ao Terceiro Objetivo nestes dias, mas temos que perceber que tal investigação como ele convoca requer pessoas treinadas para empreendê-la, e então sua competência e descobertas não podem ser facilmente comprovadas para outros.

Haverá sempre, portanto, espaço para ceticismo e diferenças.

Uma pessoa que é psíquica ou clarividente pode dizer: "Eu vejo tais e tais coisas", mas pode estar vendo apenas projeções do que já está subconscientemente em si mesma, criando formas a partir de suas próprias ideias e visualizando-as.

Somente pessoas que possuem o treinamento e as faculdades necessários podem empreender investigação em um sentido real, em distinção do mero estudo do que outros disseram sobre o assunto.

Como o que os videntes ou investigadores, competentes em diferentes graus, dizem não está aberto à verificação por nós, temos de julgá-lo com nossa própria razão e entendimento.

O trabalho do Terceiro Objeto, no sentido de investigar o inexplicado e o latente, pode, portanto, ser empreendido apenas por indivíduos por sua própria responsabilidade, ou ocasionalmente por uma equipe, e não pela Sociedade como um todo.

O Irmão C.W. Leadbeater, ou mesmo H.P.B., não foi oficialmente comissionado para empreender tal tarefa; eles empreenderam o que fizeram nessa linha por sua própria iniciativa e publicaram os resultados de suas pesquisas para o benefício de todos.

É claro que podemos interpretar o Terceiro Objeto como incluindo atividades tais como as realizadas pela Sociedade de Pesquisa Psíquica.

Mas parece não haver sentido em a Sociedade Teosófica duplicar o trabalho de tal corpo, assim como não deveria duplicar as atividades dos cientistas, embora suas atividades também estejam relacionadas com a verdade ou aspectos da verdade.

Tampouco acho que seria sábio para nós oficialmente iniciar aulas de ioga para despertar a kundalini, estimular os chakras, ou fazer qualquer coisa desse tipo pela qual possamos estar causando o maior dano às pessoas envolvidas, embora haja pessoas que pensem que essas são coisas que deveríamos estar fazendo.

Não é nosso negócio, como Sociedade, engajar-nos em atividades de natureza espiritualista, mesmo que alguns bons resultados pudessem ser obtidos com isso.

Se os objetivos da Sociedade são filantrópicos e espirituais em essência, devemos manter esse objetivo firmemente em vista e não causar confusão nas mentes das pessoas entre espiritualidade e psiquismo.

Devemos ter cuidado para não investir a Sociedade com um caráter que não lhe pertence, identificando-a com buscas psíquicas de diferentes tipos.

No Oriente – especialmente na Índia – os grandes mestres espirituais consideraram a posse de poderes psíquicos em geral como um passivo, e não um ativo, no caminho do progresso espiritual.

Se isso é assim ou não dependeria muito da pessoa que possui esses poderes e da maneira como os usa, do tipo de pessoa que é e de seus motivos.

Em qualquer caso, a busca de tais poderes, que geralmente é por motivos que tendem ao sensacional, mesmo quando não são realmente egoístas, torna-se uma distração da descoberta da verdade sobre si mesmo, do autoconhecimento.

Podemos, é claro, considerar e discutir o que é divulgado por um indivíduo pelo uso de tais poderes, e todos os interessados podem participar de tal discussão.

Em outras palavras, como Sociedade, só podemos investigar no nível intelectual, isto é, estudar e discutir, e há muitas Lojas que se dedicam a esse tipo de trabalho.

Esse tipo de investigação é realmente a ampliação do campo de observação e pensamento científico e filosófico.

Como cresceu e mudou — Posso aqui apontar as várias versões que tivemos no passado deste Terceiro Objetivo, pois elas lançam luz sobre o pensamento das pessoas líderes da Sociedade à medida que este se desenvolveu.

Isso nos dará um pouco de compreensão sobre o que está realmente por trás da redação atual.

Quando a Sociedade foi fundada em 1875, o único Objetivo mencionado em seus estatutos era o seguinte: "Os Objetivos da Sociedade são coletar e difundir um conhecimento das leis que governam o universo." Não há menção alguma à Fraternidade; a ideia de Fraternidade, como mostram os registros, aparece pela primeira vez na história da Sociedade em 1878. O Coronel Olcott, o Presidente-Fundador, registra o fato de que a Fraternidade não foi pensada no início.

Na verdade, toda a questão de saber se a Fraternidade deveria ser o Objetivo primário, ou o Ocultismo no sentido comum do termo, foi matéria de considerável discussão entre os Adeptos e aqueles com quem eles se correspondiam, a saber, o Sr. Sinnett e o Sr. Hume.

Em 1878, as atividades começaram na Inglaterra com a formação de um corpo intitulado Sociedade Teosófica Britânica, e essa Sociedade emitiu uma circular na qual se declarava que fora fundada "com o propósito de descobrir a natureza e os poderes da alma e do Espírito humanos por meio de investigação e experimento" — um empreendimento ambicioso aparentemente adotado sem qualquer ideia clara do que envolvia.

Em fevereiro de 1880, o Conselho Geral da Sociedade formulou certos Objetivos que correspondem ao presente Terceiro Objetivo, e eram os seguintes: Primeiro, "Manter vivas no homem as intuições espirituais". Não se declarava como isso seria tentado.

Segundo, "Opor-se e neutralizar, após devida investigação e prova de sua natureza irracional, o fanatismo em todas as formas, seja como sectarismo religioso intolerante, seja como crença em milagres ou em qualquer coisa sobrenatural".

Terceiro, "Buscar obter conhecimento de todas as leis da Natureza e auxiliar na sua difusão; e especialmente encorajar o estudo daquelas leis menos compreendidas pelas pessoas modernas e assim chamadas Ciências Ocultas".

Não sei se as palavras "todas as" foram colocadas deliberadamente, ou se foi devido à tendência de todos nós de falarmos em termos absolutos excedendo o que realmente queremos dizer.

Em 1883 e também em 1884, várias modificações desses objetivos foram adotadas por diferentes Lojas para adequá-los às suas ideias e fantasias.

Aparentemente, elas podiam fazê-lo porque a Sociedade-mãe não estava organizada suficientemente para orientá-las, nem os objetivos haviam sido geralmente acordados e fixados naquela época.

Havia a Sociedade Teosófica do Himalaia, por exemplo, que se considerava um corpo bastante superior.

Incluía o Sr. A. P. Sinnett e o Sr. A. O. Hume, e seus objetivos foram assim enunciados: Primeiro, "Fraternidade Universal"; aparentemente isso foi registrado como uma concessão aos Adeptos, que insistiam na Fraternidade como objetivo primordial.

Em segundo lugar, "A união da Mônada individual com o Infinito e o Absoluto"; um objetivo louvável, mas que permite alguma dúvida quanto a saber se aqueles que o formularam tinham qualquer ideia da natureza real do que era esboçado.

E então, em terceiro lugar, e isto soa quase banal após aquele segundo objetivo grandioso: "O estudo dos mistérios ocultos da Natureza e o desenvolvimento dos poderes psíquicos latentes no homem."

A Loja de Londres, que foi um corpo muito ativo e importante nos primórdios da Sociedade, quando o Sr. Sinnett esteve associado a ela, formulou este objetivo da seguinte forma: "A investigação da natureza da existência, com vistas à compreensão e realização das potencialidades superiores do homem, e o reavivamento da pesquisa relacionada à ciência oculta e à filosofia esotérica." A inclusão da frase "a natureza da existência" parece ser também uma indicação da vagueza quanto ao que deveria ser investigado, que prevalecia em vários grupos naquela época.

Também podemos notar que aqui se faz uma distinção entre ciência oculta e filosofia esotérica, ou talvez as frases tenham sido usadas para se referir a dois lados diferentes do mesmo empreendimento.

No Relatório Anual de 1885, dez anos após a fundação, o Terceiro Objetivo foi definido da seguinte forma: "O Terceiro Objetivo, perseguido por uma parte dos membros da Sociedade, é investigar as leis inexplicadas da Natureza e os poderes físicos do homem". O Primeiro Objetivo era muito semelhante ao atual, mas o Segundo Objetivo, em vez de falar de religião comparada, filosofia e ciência, fala de "religiões e filosofias arianas e outras orientais". Chegando a 1890, encontramos o Terceiro Objetivo reduzido a uma aproximação próxima de sua forma atual: "Investigar as leis inexplicadas da Natureza e os poderes psíquicos latentes no homem". Mais tarde, a palavra "psíquicos" foi omitida e o Objetivo foi colocado na forma em que se encontra hoje.

O Sr. Jinarajadasa, em O Livro de Ouro da Sociedade Teosófica, faz o seguinte comentário sobre essas várias versões: "Era apenas a forma externa que precisava encontrar uma expressão adequada através das diversas mudanças." H.P.B., em A Chave para a Teosofia, faz uma distinção clara entre um Teosofista e um ocultista.

"Este último", diz ela, "está preocupado com os processos ocultos na Natureza, a potência secreta das coisas na Natureza". Em um artigo intitulado "Progresso Recente em Teosofia" — aparentemente o artigo foi escrito aproximadamente na mesma época — ela explicou: "O Terceiro Objetivo, perseguido por uma parte dos membros da Sociedade, é investigar as leis inexplicadas da Natureza e a natureza psíquica do homem.

Há dois objetivos gerais e um objetivo restrito de atenção."

Apenas uma parte de nossos membros se ocupa das propriedades ocultas da matéria e dos poderes psíquicos do homem.” Não sei se há algum membro atualmente que esteja se ocupando das propriedades ocultas da matéria.

“A Sociedade como um todo,” ela escreveu ainda, “não está concernida com este ramo de pesquisa, e naturalmente, pois de cada 10.000 pessoas que se possa encontrar, as probabilidades são de que apenas uma pequeníssima minoria tenha tempo, gosto ou habilidade para empreender estudos tão delicados e desafiadores.

Consideramos uma boa coisa proclamar esta linha de pesquisa e autodescoberta como o terceiro de nossos três Objetos.

Para aqueles que se interessam por ela e para todos os investigadores que possam alcançar e encorajar, os livros filosófico-místicos do presente e de tempos passados foram escritos.”

Pelo que acabei de citar, deve-se notar que ela não considerava as obras filosófico-místicas do passado como superadas por escritos posteriores.

Há pessoas que pensam que o que chamamos de literatura teosófica superou completamente todas as obras anteriores, às vezes chamadas de “Teosofia histórica”. Além disso, ela inclui a “autodescoberta” como estando sob o Terceiro Objeto.

Esse é um trabalho no qual todos nós podemos nos engajar.

Critérios de Verdade — Gostaria de considerar aqui o tipo de mente necessária para o estudo do Ocultismo.

Para este estudo particularmente, e também para investigar qualquer aspecto da verdade, deve haver uma mente que seja veraz no sentido mais estrito, isto é, uma mente que não tergiversa, não encobre coisas cuja verdade é inconveniente para si mesma, não tem interesse pessoal em quaisquer ideias, não engana a si mesma e não projeta conceitos agradáveis a si mesma.

Não sei qual de nós possui tal mente, mas parece-me perfeitamente óbvio que, antes de podermos estudar o Ocultismo a sério e obter êxito nele, temos de ter esse tipo de mente.

Se uma pessoa é condicionada de certas maneiras, quaisquer conceitos que ela possa projetar provavelmente participarão desse condicionamento.

Poderíamos também considerar a questão do que poderia ser considerado conhecimento válido, o que podemos aplicar.

Obviamente, o que é percebido ou experienciado por uma pessoa é um item de conhecimento para ela, não necessariamente uma prova absoluta da verdade que ela possa imaginar ser, mas verdadeiro até onde vai.

Vejo algo que me parece sólido e verde, mas a natureza da coisa pode ser realmente diferente de como a vejo. Em todo caso, terá vários aspectos que não me são evidentes. Portanto, não é a verdade absoluta ou total que percebo ou experiencio.

No entanto, como percepção ou como experiência que me chegou, como evidência, tem seu próprio significado.

Em segundo lugar, quando registramos certos fatos, as relações entre eles, as inferências que extraímos de nossas percepções têm obviamente uma validade no mesmo plano das próprias percepções.

Pode ter mais validade como processo de pensamento, ou as premissas podem estar erradas enquanto o raciocínio está correto.

Em terceiro lugar, podemos aceitar provisoriamente declarações provenientes do que consideramos ser fontes conhecedoras.

Nessa conexão, surgiria a questão de saber se a fonte é realmente conhecedora no que diz respeito aos assuntos em questão.

Se quero saber algo sobre as condições na Antártida, naturalmente tenho de aceitar as declarações daqueles que estiveram nessa parte do globo, desde que considere essas pessoas dignas de confiança.

Da mesma forma, há muitas declarações nas Cartas dos Mahatmas que são aceitas por muitos membros porque as fontes, temos razão para pensar, são altamente conhecedoras quanto aos assuntos tratados.

Além de tudo isso, também é legítimo entregar-se a, se essa é a palavra apropriada, ou formular uma hipótese que explique, que seja consonante com os fatos e os ilumine.

Na ciência moderna, há a constante formulação de hipóteses, teorias e equações e posterior emenda das mesmas.

Quando acolhemos uma teoria, não devemos equipará-la em nossas próprias mentes à verdade absoluta.

Ela explica; acolhê-la nessa base me parece perfeitamente legítimo: pois então não diminui a liberdade de progredir em direção a uma verdade maior ou à verdade absoluta.

Então, pode-se acrescentar que existe o que chamamos de Intuição, um termo muito mal compreendido.

A verdadeira intuição é ou uma percepção não distorcida que brota da, ou uma criação pela, consciência total.

Incluir a intuição como uma forma de conhecimento não me parece anticientífico.

Depende do que queremos dizer com essa palavra.

Antes que a faculdade da verdadeira Intuição possa entrar em ação, tem de haver uma cessação do pensamento ilusório, e a mente tem de estar livre de ideias preconcebidas.

Assim como tem de haver temperança, moderação, em nossa vida física, também tem de haver austeridade no pensar de cada um, sem desvios para caminhos agradáveis.

Quando imaginamos porque gostamos de imaginar, nos entregamos a fantasias de diferentes tipos, isso se torna uma espécie de indulgência; mas para chegar à verdade, deve-se ter aquela qualidade de austeridade que se mantém livre da propensão a cair no que é, por enquanto, confortável e agradável.

Leis de Diferentes Categorias — As leis da Natureza podem ser de diferentes classes.

Primeiro, há as leis da matéria em diferentes graus, sejam elas tais que possam ser cognoscíveis pelos nossos sentidos ou existam além de seu alcance limitado.

Depois, há leis que pertencem à natureza da vida, suas características, sua ação e evolução.

Então, há as leis da mente, da psicologia e da psique.

A estas, eu acrescentaria as leis da harmonia, que são um ramo inteiro do assunto todo, envolvendo a percepção intuitiva de harmonias e dissonâncias em muitos campos diferentes.

Quando você ouve música, diz: "Bem, isso é uma harmonia". Como você estabelece a harmonia para sua própria satisfação? Não há maneira tangível de provar a outro a harmonia que você experimenta.

É por uma percepção intuitiva que se conhece ou se sente a harmonia nos sons, nas cores ou nos movimentos de qualquer outra coisa.

Eu diria ainda que existe algo como as leis do próprio ser interior ou Espírito de cada um.

Isso pode parecer um pouco místico e vago.

Explicarei o que quero dizer em breve.

Pode haver leis que, em sua operação, abrangem vários níveis diferentes de existência, como a lei do Karma, que em um aspecto é mecânica e invariável, mas em outro aspecto é moral e envolve o conceito de justiça.

De alguma forma, esses dois aspectos são coordenados no Karma, conforme o entendemos.

Falei da lei do Espírito.

Pode-se perguntar: a natureza e a ação do Espírito não devem ser identificadas inteiramente com a liberdade? Pode-se falar de lei quando se refere à liberdade? Mas consideremos este fato: a ação deste princípio mais interior do Espírito resulta, toda vez, em uma criação perfeita; e o que é perfeito ou perfeitamente construído sempre incorpora uma lei.

Por exemplo, pode haver uma composição musical perfeita, ou um vaso perfeitamente moldado.

O artista apenas olha para a forma do vaso ou ouve a música e diz que é perfeito.

É também o senso artístico que a trouxe à existência.

Mas se, com outro tipo de mente, você examinar a construção do vaso ou a sinfonia musical, encontrará certas leis concretas incorporadas na construção.

O artista, sem passar por um processo de pensamento, incorporou uma forma de lei na criação que produz, e a lei incorporada é sempre uma lei de harmonia.

É uma lei não pensada.

Assim, podemos dizer de uma criação pelo Espírito que ela segue a lei do seu próprio ser.

Em toda parte, na Natureza, há leis, mas também há liberdade; a Natureza — incluindo o homem — sendo uma mistura de Espírito e Matéria.

Ou, para usar as palavras em Sânscrito, que são plenas de significado, Purusha e Prakriti.

Prakriti é aquilo que veio a existir por um processo; Purusha é eternamente uno e indiferenciado; é a energia que existe sempre, mas periodicamente eletriza a raiz da matéria.

O Atman, o princípio espiritual universal que está na base dessa energia, é onipresente; está em cada ponto, e toda manifestação dele tem um aspecto de eternidade.

A manifestação é limitada, porque, para manifestar-se, o Atman, a centelha do Divino, tem de ser incorporado em algum tipo de vestimenta, e sua ação, sua luz, é limitada e fragmentada pela vestimenta.

Aquilo que tem em si a natureza da eternidade pode ser simbolizado por um círculo, seja grande ou pequeno.

Mas o círculo tem de ser quadrado dentro das limitações do corpo de matéria.

É assim que as coisas são na Natureza.

Talvez os vários sólidos platônicos sejam realmente estágios na aproximação à esfera, que é uma forma de círculo e é considerada a figura geométrica perfeita.

Poderes Relacionados ao Estado de Ser — Agora, quanto aos poderes latentes no homem.

Se são realmente latentes, como você vai investigá-los ou observá-los? Você não pode investigar aquilo que não pode observar, que não pode tocar de forma alguma.

Os poderes têm, de algum modo, de ser trazidos do estado de latência, antes que possais vê-los, estudá-los ou manuseá-los de qualquer maneira.

Não deveríamos, talvez, ser demasiado literais, mas tomar essas frases como são geralmente entendidas.

Os poderes latentes no homem são latentes na natureza, que existe como uma entre várias aproximações ao Último, o Espírito mais íntimo.

Em cada nível há uma aproximação que é uma certa camada do ser.

Poderíamos, em linhas gerais, dividir essas naturezas em psíquicas e espirituais.

Poderíamos considerar a constituição do homem como tendo uma base e um ápice, sendo o ápice um ponto sem dimensão, que pode ser considerado como representando a consciência, ainda intocada por qualquer processo de tempo, que está naquele momento intangível, a saber, o presente, que divide o passado do futuro.

Há os níveis intermediários ou planos entre essa base e esse ápice.

Quando a relação é diretamente entre o ápice, isto é, o ponto sem dimensão, e a base, que pode ser considerada como o substrato de todas as coisas, akasha, então a relação é espiritual.

Mas quando a relação é com um dos níveis intermediários, então pode ser espiritual ou pode ser psíquica, conforme o caso. Há poderes apropriados a cada camada do ser.

Isso é exposto por H.P. Blavatsky de maneira notável em um artigo sobre progresso espiritual, no qual ela se refere aos poderes psíquicos e ao trabalho da Sociedade Teosófica.

Ela aponta que, para se tornar um Adepto, que possui poderes maravilhosos, é preciso tornar-se

“um homem novo, mais perfeito em todos os sentidos do que é atualmente, e se ele tiver sucesso, suas capacidades e faculdades receberão um aumento correspondente de alcance e poder, assim como no mundo visível descobrimos que cada estágio na escala evolutiva é marcado pelo aumento de capacidade.

É assim que o Adepto se torna dotado de poderes maravilhosos que tantas vezes foram descritos, mas o ponto principal a ser lembrado é que esses poderes são os acompanhamentos naturais da existência no plano humano comum.”

As pessoas tantas vezes pensam em cultivar este ou aquele poder, querem trabalhar no plexo solar ou em algum outro centro em seus corpos, mas o caminho é inteiramente diferente.

Os chamados poderes são realmente a frutificação da árvore viva que é o ser humano.

H.P.B. diz ainda: “A Sociedade foi fundada para não ensinar caminhos novos e fáceis para a aquisição de ‘poderes’; sua única missão é reacender a tocha da verdade, há tanto tempo extinta para todos exceto pouquíssimos, e manter essa verdade viva pela formação de uma união fraternal da humanidade, o único solo no qual a boa semente pode crescer.

“A este respeito, advertimos todos os nossos membros, e outros que buscam conhecimento espiritual, a se acautelarem contra pessoas que se oferecem para ensinar-lhes métodos fáceis de adquirir dons psíquicos; tais dons são de fato comparativamente fáceis de adquirir por meios artificiais, mas desaparecem assim que o estímulo nervoso se esgota.”

O verdadeiro vidente e adepto, acompanhado de genuíno desenvolvimento psíquico, uma vez alcançado, nunca se perde."

Nas Cartas dos Mahatmas há algumas declarações notáveis concernentes aos segredos do ocultismo que se aplicam aos poderes psíquicos superiores.

Os correspondentes dos Mahatmas, naquela época, queixavam-se de que os Adeptos pareciam relutar em divulgar os fatos que conheciam.

Então os Mestres dizem:

"A verdade é que, até que o neófito atinja a condição necessária para aquele grau de iluminação ao qual, e para o qual, ele tem direito e é admitido, a maioria, senão todos, os segredos são incomunicáveis."

Eles não podem ser colocados em palavras, nem mesmo podem ser transmitidos por qualquer meio telepático, quando a mente da outra pessoa não está preparada para receber esses segredos.

Se assim não fosse, tudo o que os Adeptos teriam de fazer seria publicar um manual da arte que pudesse ser ensinado nas escolas.

Essa é aparentemente a visão que muitas pessoas acalentam.

Terceiro Objetivo: Seu Escopo e Limitações Para resumir o que eu disse: O estudo do Ocultismo em geral pode fazer muito bem.

É o estudo da Natureza, tomando-a como uma totalidade, não apenas o que aparece na superfície, mas também as leis e processos ocultos.

Pode ser maravilhosamente esclarecedor, quando alguém o assume com seriedade; pois então, em vez de ver apenas o aspecto superficial das coisas, ele vê através delas, penetra no coração da existência, vê o que está por trás da fachada, a extensão por trás da aparência.

Todos nós podemos nos engajar em tal estudo, mas "investigar" as leis e poderes ocultos requer a capacidade necessária.

O desenvolvimento de tal capacidade é um assunto individual, não é incumbência da Sociedade, que não pode ter escolas para tal desenvolvimento.

A busca do poder é perigosa, pois constrói a autoimportância, o desejo de desfrutá-lo e dominar, seja poder neste mundo ou poder de caráter diferente.

O que quer que alguém declare ser verdadeiro pelo exercício de poderes psíquicos pode ser digno de consideração — isso depende da pessoa.

Mas deve ser recebido com um grão de discernimento.

Quando você não aceita uma declaração nem a rejeita, mas apenas a observa ou a contempla, você conhecerá sua própria resposta.

Se você responde à sua verdade, você registra esse fato.

Essa é realmente a atitude necessária com relação à busca do Terceiro Objetivo, que para muitas mentes é extremamente vago, porque elas não classificaram todas as implicações do que acreditam ou se recusam a acreditar, não têm qualquer ideia clara do que é o Ocultismo e do que podemos aceitar e do que não.

É necessário ter em nossas mentes uma certa clareza com relação aos nossos objetivos e empreendimentos, seja concernente ao Terceiro Objetivo da Sociedade ou qualquer outra coisa.

═══════   A Consciência: Sua Natureza — N. Sri Ram ═══════

CONSCIÊNCIA: SUA NATUREZA E AÇÃO por N. SRI RAM

A PALESTRA BLAVATSKY proferida na Convenção Anual da Sociedade Teosófica na Inglaterra no Besant Hall, Londres, 16 de maio, conforme publicada pela The Theosophical Publishing House, Londres, 68 Great Russell Street, Londres, W.C.I, Inglaterra

O homem é um ser de vida e consciência, e nele a consciência evoluiu até um ponto em que é capaz de compreender sua própria natureza e movimentos, bem como a natureza da vida tal como se manifesta nele.

Tal compreensão, sendo direta, é a única compreensão real.

Uma pessoa pode conhecer a si mesma diretamente.

Todas as outras coisas ela conhece apenas por impressões que estas produzem nela.

Ela pode conhecer a si mesma prestando atenção ao que ocorre em sua própria mente, suas reações e relações.

A natureza essencial da consciência, como a palavra indica, reside meramente em estar consciente ou ciente de tudo o que existe ou ocorre em relação a ela. Mesmo as plantas e os insetos são conscientes, em seus respectivos graus, de maneiras que, em sua maioria, não compreendemos.

No homem, a consciência tem um alcance muito além do de qualquer animal e, além disso, ele é capaz de pensamento, que é uma espécie de superestrutura erguida sobre o solo de sua percepção básica.

As atividades que se desenvolvem no campo de sua consciência, e as várias mudanças que ali ocorrem, eclipsam e, em grande medida, suprimem a percepção subjacente.

Dificilmente sabemos o que é estar ciente sem pensamento, com uma consciência livre de superimposições e em paz consigo mesma.

Ocasionalmente, talvez, quando despertamos do sono não perturbado pelo menor traço de um sonho, possamos experimentar um estado de estar cientes do que nos rodeia, sem pensamento algum.

No mero estar ciente não há exercício de vontade ou esforço, mas as atividades do pensamento são iniciadas ou influenciadas pela vontade, que é a vontade do indivíduo.

Todos os atos particulares surgem, como vemos no mundo físico, de um impulso, e a vontade é afim a esse impulso; mas nenhum ato particular de vontade é necessário para estar simplesmente consciente, sendo essa a própria natureza da consciência, assim como nenhuma volição particular está envolvida na visão física, a menos que se a dirija a um alvo específico.

Há apenas a vontade ou o desejo geral de estar desperto, de prestar atenção, de estar consciente.

Quando não há movimento de pensamento, mas apenas um estado de estar desperto e atento, tudo o que entra nesse campo é refletido automaticamente na consciência como num espelho.

Mas quando há a atividade do pensamento, ela diminui a atenção dada ao objeto percebido, ou essa atividade carrega consigo parte da energia necessária para a atenção plena.

O confronto de qualquer ato, ou a atenção plena a ele, exige liberdade de distração, de interferência nesse processo; e o pensamento, que implica afastar-se desse ato para outras coisas na memória, é uma distração.

Em tal confronto de atos há objetividade e realismo.

Quando estamos completamente conscientes, expondo toda a consciência ao objeto que entra em seu âmbito, esse é um estado de consciência que poderia ser descrito como negativo, no sentido científico.

Tal negatividade é um estado de pura recepção, como o de uma chapa fotográfica, que precisa ser negativa para receber impressões.

A palavra negativo deve ser entendida no sentido de ser altamente sensível, e não como insuscetível ou indiferente, não como uma mente vazia pronta para ser ocupada por qualquer intruso, possuída por qualquer fantasma errante.

Em um estado de consciência no qual todos os atos se registram, não há seleção, mas nos movimentos do pensamento a atenção é dirigida a certos particulares, certas ideias são trazidas da memória, e há uma escolha de dados, que são tomados como base de um julgamento ou raciocínio.

Nosso pensamento é frequentemente baseado em dados imperfeitos, como também em avaliação equivocada.

Sendo nossa consciência ordinariamente dividida, forças na mente subconsciente — aquela parte cujas operações não são percebidas — dirigem a mente consciente, determinam seus movimentos e dão origem a uma ação de natureza parcial, frequentemente em conflito consigo mesma.

Tais forças são nossos desejos, aversões e medos e, em formas mais fortes e maior intensidade, ambição, inveja, cobiça e assim por diante.

É somente em um estado puramente negativo, sem qualquer divisão causada por tais forças, quando a consciência está plenamente desperta, que ela está alerta e receptiva ao máximo; pois então toda a energia está na recepção e a consciência está em pleno rapport com o objeto de sua atenção.

Tal estado de mente e coração está aberto ao real, à verdade.

Nesse estado não há tentativa ou desejo de escapar da realidade, nenhuma subjetividade que signifique retirada de contato com a atualidade das coisas.

Quando a mente é condicionada, como as mentes de todos nós são por várias influências que atuam sobre nós desde a infância, ela não está no que poderíamos chamar de seu estado puro ou natural; torna-se bastante diferente.

O Gita fala do 'campo e o conhecedor do campo'. A consciência é obviamente um campo, uma extensão ou continuum como o espaço, mas em vez de permanecer homogênea e lisa, ela se torna, quando trabalhada por várias forças, enrugada e distorcida, manchada e colorida, fragmentada de diferentes maneiras, e então as peças são reunidas por vários ajustes forçados.

Ela então exibe a natureza das forças que operam, não sua natureza essencial, e sua ação não é a ação dessa natureza.

Assim como a visão física de uma pessoa pode tornar-se terrivelmente distorcida, completamente fora de foco, e apresentar daltonismo, a mente pode tornar-se distorcida e colorida, pode imaginar o que não existe, ver os atos fora de perspectiva e agir de forma não natural, ação essa que é, na realidade, várias reações.

Esta é uma condição na qual ela se afasta dos fatos como são, na qual vê apenas o que deseja ver e acredita no que deseja acreditar.

É somente quando não há distorção alguma, quando a consciência está em seu estado não modificado, que ela pode perceber o que realmente é, seja fora de si mesma ou dentro de si mesma.

A distorção da visão física ou da mente é uma causa de ilusão, embora a ilusão resida também em aceitar como representação verdadeira uma imagem mental diferente do fenômeno real, mas em alguns aspectos semelhante a ele, como ao ver uma miragem no deserto ou confundir uma corda com uma cobra.

O condicionamento a que a mente se submete torna-se o solo do qual suas ideias ou projeções surgem, e também produz a vontade ou inclinação de acreditar em sua realidade.

Ver corretamente é ver sem qualquer matiz do que não é, sem que nada entre no processo de percepção que seja alheio ao objeto, e sem que o pensamento modifique esse processo.

No caso da clarividência, por exemplo, qualquer ideia ou inclinação subconsciente certamente alterará e colorirá o que é visto.

O mero esforço pode ser distorcivo e alterar o mecanismo de ver, pois por trás do esforço geralmente há um motivo e uma direção rumo a um fim predeterminado, do qual a pessoa pode estar bastante inconsciente.

A palavra sânscrita Rishi, usada na Índia, significa vidente.

Na Índia antiga, os Rishis, pelo menos alguns deles, eram chamados de 'videntes da essência das coisas', significando aqui a palavra essência aquela qualidade interior de uma coisa, a alma dela, que a torna o que é e diferente de tudo o mais, não sua mera aparência ou forma.

A vida nada mais é do que consciência completamente condicionada pelo organismo que ela utiliza.

Em cada organismo, é uma sucessão de estados nos quais há tanto experiência quanto ação, sendo a capacidade de experimentar e agir limitada pela natureza do organismo.

Nos estágios iniciais do desenvolvimento, a experiência consiste apenas de sensação física em grande variedade, juntamente com o registro de prazer e dor; mais tarde, há os estados psicológicos baseados nela, mas mesmo a sensação física é uma forma de cognição.

Se o universo é considerado como consistindo de Espírito-Matéria, como um produto de sua inter-relação, de uma certa polaridade entre eles, tanto a consciência quanto a vida, que é uma corrente de energia consciente, têm de ser consideradas como existindo potencialmente no Espírito e como derivadas dele, sendo a Matéria o meio de sua expressão.

A única relação do Espírito, que é tão subjetivo, é com a consciência que o apreende ou a ele se presta de alguma maneira.

H. P. Blavatsky referiu-se a essa verdade na afirmação de que a consciência é potencialmente espiritual.

Esta é uma visão metafísica, que não aceita o condicionamento que ocorre como base de toda a realidade.

É somente em uma consciência inteiramente incondicionada que a natureza do Espírito pode ser conhecida ou realizada.

Quando formamos uma ideia do Espírito — ou de Deus — a imagem dele é uma projeção do nosso condicionamento particular, uma mente que foi moldada de certa maneira, seja pelas influências e ideias de uma religião específica, pela sociedade com suas crenças e tradições particulares, ou pela propaganda de qualquer tipo.

A imagem consiste em material já presente na mente como ideias ou experiências e é moldada pelas forças que operam nela. Quando postulamos a existência de algo que chamamos de Espírito, do qual a vida e a consciência emanam, deve ser um Espírito vivo, vida em uma condição que não podemos imaginar, a própria essência da vida ou da vivacidade, também da natureza da consciência, nesse nível incondicionada, e em um estado de absolutez.

Na vida como a vemos nos organismos vivos, há o movimento do desejo, a busca por experiência e uma tendência a apropriar-se e usar tudo o que é necessário para manter a si mesma e dar-lhe uma sensação de expansão.

Tudo isso ocorre mecanicamente e caracteriza a mente em sua inconsciência.

Há na natureza da mente, como a encontramos em nós mesmos, uma busca por realização, o que implica a existência de um vazio dentro de si mesma que se procura preencher.

Buscamos o estímulo da experiência porque há uma falta em nós mesmos que gera descontentamento e perturba nossa condição.

Quando nos referimos à vida em seu estado pristino, incondicionada por qualquer processo de tempo, temos de pensá-la como não buscando nada, como realizada em si mesma, mas sem ser limitada por essa realização.

Há estagnação quando a realização não está em um fluxo espontâneo, mas em um estado saturado, como a condição de uma pessoa quando está completamente satisfeita.

A natureza de uma mente apegada à matéria e à sensação está em polos opostos àquela percepção pura que é a natureza intrínseca da consciência e sua ação a partir desse estado.

A consciência, como podemos observar em nós mesmos, pode ser limitada ou extensa, superficial ou profunda, parcial ou total; nós a julgamos pelo que vemos de sua natureza em nós mesmos, mas ignoramos sua capacidade real.

No campo das coisas concretas, pode haver percepção não apenas dessas coisas, mas também das relações entre elas.

Essas relações são físicas, mas pode haver relações também entre impressões ou imagens em nossas mentes.

Quando comparamos um certo fenômeno a outro fisicamente não relacionado, como por exemplo relâmpagos aos galhos de uma árvore, a relação é criada na mente.

Não é necessário pensar para captar a relação entre coisas que são percebidas como uma totalidade; pois as relações são implícitas; quando vemos as coisas, vemos também a relação entre elas.

PERCEPÇÃO EM PROFUNDIDADE

Pode haver sensibilidade de natureza mais sutil ou mais profunda, como à beleza, à harmonia, à proporção, à expressão de um rosto e, de modo geral, ao significado que jaz no âmago da natureza das coisas.

Tudo isso pode ser descrito como percepção em profundidade, e não é produto do pensamento.

Quando discutimos sobre a beleza de uma coisa, a argumentação geralmente é confusa e se transforma em questão de opinião.

Ordinariamente, estamos cientes apenas de poucas coisas superficialmente, e deixamos as demais passar. Não estamos em contato com este mundo e suas riquezas, exceto parcialmente.

Temos a capacidade de perceber, mas a ela é dado pouco espaço.

Não notamos a beleza de uma nuvem, ou os movimentos de uma folha ou de um pássaro, e muitas outras coisas dessa espécie.

É preciso um artista para pintar um quadro e apontar a beleza.

Mesmo assim, apreciamos mais o quadro do que a coisa em si, a habilidade demonstrada ao pintar um pôr do sol, mais do que o próprio pôr do sol.

A negatividade necessária é um empenhar do coração e do interesse, mas tal negatividade não está presente quando a mente está ocupada com um processo de pensar, com várias comparações e julgamentos, com o que está dito no catálogo descritivo.

A percepção em profundidade só existe no silêncio da mente, um estado agudamente vivo e sensível, sobre o qual não há nuvens, nenhum movimento superficial de vaivém.

Quando usamos a palavra profundidade em sentido psicológico, ela se refere à experiência de uma resposta em nós mesmos.

O sentimento de profundidade reside na receptividade profunda e na ação desde as profundezas da consciência, e não meramente desde sua superfície.

Ao ouvir música, tem de haver silêncio físico para absorver cada nota.

Mas, ainda mais, tem de haver silêncio na consciência que registra as notas.

É somente nesse silêncio que o significado de uma nota em relação às outras é experimentado.

Mas acontece com frequência que apenas algumas notas ou certa frase evocam algo na memória, e então a mente vagueia, como costuma fazer, por uma série de associações; então a beleza da música, sua essência, se perde.

Se é música verdadeiramente bela, é preciso dar o coração a ela, e o coração deve mover-se com as notas.

Frequentemente consideramos o coração como a sede das emoções, das reações pessoais, mas em outro sentido, como quando dizemos que grandes pensamentos brotam do coração, ele significa a consciência mais profunda, cuja resposta é uma revelação de beleza, e também de amor.

O treinamento em música e o domínio da técnica não evocam por si mesmos a sensibilidade que pertence a essas profundezas onde há uma condição de silêncio.

Essa condição é também equilíbrio, receptividade e tranquilidade, e é necessária para compreender as complexidades em nós mesmos, bem como a consciência em seu estado fundamental.

Quando toda a consciência é como água que reflete a paisagem, clara e imperturbada, então é possível ver até o fundo.

A consciência é a própria sensibilidade.

Nós a conhecemos apenas sob pesadas limitações.

É obviamente limitado pelo cérebro, mas também por suas próprias atividades, pelo modo como age em sua ignorância.

Essa ignorância é acerca de sua própria natureza, do que lhe acontece quando não está desperto, no que se torna, e não acerca do mundo externo.

Diz-se do âkâsha, o termo sânscrito geralmente traduzido como éter, que ele é como o espaço — pode ser o próprio espaço — uma substância homogênea que tudo permeia, diferente de qualquer outra substância, sutil e tão extraordinariamente sensível a ponto de ser impressionada por tudo o que tem existência e por tudo o que ocorre, incluindo os mais leves movimentos de pensamento e sentimento.

Mais do que isso, ele retém o registro para sempre.

Ninguém pode razoavelmente dizer que tal extensão ou substância que tudo permeia não possa existir neste universo miraculoso.

Quanto mais o universo foi investigado, mesmo em seu aspecto físico, mais complexo e sutil ele se mostrou. É muito mais misterioso do que parecia até mesmo a Sir James Jeans quando, como Astrônomo Real da Inglaterra, escreveu *O Universo Misterioso*, no qual aponta sua semelhança com um pensamento matemático.

Afinal, pode haver mais coisas no céu e na terra do que sonha nossa filosofia. Pode ser que no estado fundamental e original chamado âkâsha, matéria e consciência sejam uma e a mesma coisa; que as características de ambas pertençam a uma única substância, usando esta palavra, substância, em seu sentido literal, como aquilo que subjaz às diferenciações que se desenvolvem em estados subsequentes.

Nesta visão, essa extensão é também a base de nossa constituição individual.

Essas afirmações não podem ser provadas por nenhum método da ciência, mas devem ser consideradas com base em sua plausibilidade, consistência com outros fatos do conhecimento e valor na explicação da natureza tanto de nós mesmos quanto do universo.

Talvez tudo o que nos tocou de alguma maneira esteja registrado nas profundezas de nós mesmos, assim como tantas impressões são registradas em nossos cérebros, mas não temos consciência delas.

Pode haver uma sensibilidade subjacente mascarada por uma mente superficial que se tornou áspera e endurecida.

O biólogo comum considera a consciência, bem como a vida, um produto da matéria ou de combinações moleculares, mas em uma visão profunda a aparência pode, neste caso como no caso de muitos outros fenômenos naturais, ser contrária à verdade.

Se a vida flui como correntes individuais, e cada uma passa através e usa uma sucessão de formas no processo evolutivo, então pode haver uma evolução essencialmente ininterrupta de individualidades.

A evolução da vida é realmente uma evolução da consciência mais a evolução da organização ou forma necessária para sua ação, ou para a expressão do que ela contém em si mesma, seu caráter.

Sem uma organização que sirva como meio, não pode haver ação ou expressão; a energia deve permanecer potencial.

A forma tem um significado próprio, à parte da organização, que é percebido pelo artista.

É um ditado bem conhecido que os olhos são as janelas da alma.

Pode-se ver algo da natureza de uma pessoa, seu humor e seus sentimentos, em seu rosto, no tom e nas inflexões de sua voz, em seu porte e movimentos.

Os pensamentos e sentimentos de alguém ao longo de um período de tempo, e até mesmo imediatamente, se forem intensos o bastante, mudam sua expressão.

A forma é, até certo ponto, uma revelação da natureza da vida e da consciência que nela habitam, que se adapta à forma e, no entanto, a modifica. A evolução é geralmente interpretada com base em mudanças biológicas, que são um aspecto de todo o processo.

Mas, sob uma visão outra e mais interior do que ocorre, pode-se perceber que ela é a evolução da individualidade, dos relacionamentos e da ordem, das capacidades, da inteligência e das sensibilidades, da harmonia e da beleza — cada aspecto das mudanças complexas conferindo ao processo um significado acrescido.

Podemos pensar na vida como sendo essencialmente o mesmo tipo de energia onde quer que atue, mas ela tem esta característica notável: sempre flui através de um canal definido, assume uma forma individual e é individual em expressão e ação.

Quando a expressão ou a forma alcança uma qualidade de beleza, a individualidade manifesta uma nova ordem de significado.

Uma coisa bela destaca-se e aparta-se de tudo o mais.

Ela tem uma qualidade que é realçada por sua construção, um significado mais que físico, seja uma forma viva, uma pintura, uma forma de palavras ou qualquer outra coisa.

Se pudermos alcançar uma comunhão com a consciência dos seres vivos ao nosso redor, ainda que em pequena medida, senti-la, estar abertos a ela, negativos a ela, como às vezes fazem pessoas em comunidades primitivas não desenvolvidas intelectualmente, perceberemos a verdade nas palavras de Wordsworth de que "todo ser inferior goza o ar que respira". Tudo o que está vivo na Natureza tem experiências diferentes, mas mostra marcadamente a alegria de viver que provém de um fluxo de vitalidade, do movimento e do exercício de suas faculdades.

Possui uma inteligência que se adapta e opera nas condições particulares em que existe.

Sua ação e respostas baseiam-se no instinto, não no pensamento, como é o caso conosco. Oscilamos entre uma ideia e outra, mas o instinto é fixo e seguro.

Todo ser vivo, seja uma árvore, um inseto, uma ave ou um animal, tem sua própria natureza psíquica ou qualidade de consciência — a palavra psique sendo apropriada por denotar algo individual e definido.

Tem sido chamada de alma animal ou kama-manásica, para usar os termos sânscritos que descrevem exatamente sua natureza, sendo kama-manas a inteligência movida pelo desejo ou apetite.

H. P. Blavatsky, em uma nota de rodapé em A Voz do Silêncio, fala de três almas: a alma animal, a alma humana e a alma espiritual como aspectos de uma só alma, ou como três condições diferentes nas quais o que se chama alma pode existir.

A consciência em todos os seres vivos, e no homem até certo ponto, é influenciada por apetites e desejos.

A vida é sempre dinâmica.

Ela cresce, reproduz-se e evolui.

Há mudança em todo organismo vivo de momento a momento, e de acordo com a lei de causa e efeito.

A energia que é vida está por trás dessa mudança.

Essa energia fluindo através de um canal individual e, sendo da natureza da consciência — ou vida é uma corrente de sensibilidade e ação — torna-se tingida pela influência das experiências que encontra e desenvolve hábitos de reação a elas.

Vemos isso na Natureza.

Essa natureza que chamamos de psíquica em nós também adquire suas cores e desenvolve hábitos de maneira semelhante.

A evolução é tanto da psique, que é uma individualização da consciência com uma forma e caráter particulares, quanto do corpo ou organização.

FORMA ARQUETÍPICA INVISÍVEL

A lei de causa e efeito é estritamente determinista.

Ela subjaz a toda mudança na Natureza, contudo, no processo universal, algo novo, novos tipos, novas espécies, novas faculdades, vêm à existência.

A Natureza constantemente aperfeiçoa um padrão existente; ela supera a si mesma.

Como isso é alcançado? A única explicação satisfatória para o aparecimento de algo novo que está fora das capacidades das forças que operam em um sistema fechado — que toda organização viva é em seu próprio nível, apesar de sua troca com o mundo externo — é que existem ou devem existir outras energias infiltrando-se ou derramando-se nesse sistema, de uma natureza calculada para produzir essa nova qualidade ou forma.

O conceito de uma Ideia Divina — Divina no sentido de já ter a natureza da perfeição-a-ser, uma beleza que busca expressão — de uma forma arquetípica invisível através da qual as energias pertencentes a essa ideia fluem, tanto quanto podem, para a forma existente (entendendo-se por forma, também organização e padrão) parece-me ser o mais iluminador.

A ideia, uma de um número infinito, pode ser pensada como pairando sobre os processos na organização em evolução, ou como incrustada nela como um núcleo espiritual.

Olhe para uma rosa, que é tão extraordinariamente bela.

Nem sempre foi o mesmo padrão ou qualidade de rosa; talvez nos processos de evolução possa haver no futuro uma rosa mais extraordinária.

Como essa aproximação a uma certa perfeição, que é tão notável, ocorre? A perfeição já está lá, ela preside todo o processo nessa organização.

Sri Krishna no Gita, falando como o Ser Divino imanente em todas as coisas, identifica-se com essa perfeição, referindo-se a numerosos exemplos ou tipos diferentes dela.

A vida é uma energia, obviamente, operando em qualquer nível.

Há o movimento da vida de uma condição para outra.

Quando contemplamos a consciência de uma criatura viva, sua psique, há movimento ou mudança também ali.

A mudança nela pode ser rastreada até um impulso ou causa psíquica.

No reino da consciência, o que causa movimento é ou desejo ou amor.

Poderíamos dizer que pode ser vontade, mas a vontade é geralmente a afirmação do desejo, um resultado de várias forças de atração, repulsão e modificação operando de maneira complexa no solo do qual surge o impulso ou a vontade.

Diz-se nos antigos livros indianos que no início, isto é, na própria origem do cosmos, o desejo surgiu na Consciência ou Ser que despertava, o qual era o único Uno presente.

O desejo sempre surge da memória de uma experiência anterior, mas quando aquele despertar foi o primeiro evento, quando nada havia acontecido até então e não havia experiência prévia, como poderia o desejo surgir? Temos de compreender kâma, o termo utilizado, como um certo movimento afim ao desejo, mas sem nenhum pano de fundo anterior, portanto espontâneo, sem motivo ou fim conscientemente projetado.

Talvez a palavra Eros tivesse originalmente esse significado.

Quando a consciência, que consiste em ser apenas consciente, é movida pelo desejo que brota do apego, ela assume ou cria a natureza da psique.

Mas se é movida pelo amor sem qualquer mácula de si ou de desejo, não baseado num centro de egoísmo, então é alma no sentido espiritual, a alma tendo uma natureza incondicionada, porém carregada das puras realizações e respostas que constituem seu despertar e desdobramento.

Embora vida e consciência sejam em essência a mesma coisa, há uma importante diferença entre elas, como entre água e ar.

Ambas são plásticas; a vida se adapta ao corpo como a água se adapta à configuração de um leito de rio, um símile usado por Bergson, mas perde sua liberdade ao fazê-lo; a consciência é infinitamente mais plástica, não vinculada à organização como a vida o é. Em nós, a consciência meramente usa a organização, a saber, o corpo e o cérebro, como base.

Ela pode assumir qualquer forma, moldar-se em qualquer imagem.

Basicamente, é como o âkâsha ou é una com o âkâsha.

A consciência de um ser humano evoluído pode ser tão extraordinariamente sensível, sutil e rápida em ação, com uma qualidade de encanto e também uma tensão capaz de ressonância, que ou possui a mesma natureza do âkâsha ou a si se assimila. Curiosamente, ela também pode apresentar as características da terra, da água, do ar e do fogo, os outros 'elementos', usando a palavra elemento no sentido de algo de natureza distinta e fundamental ou categoria na constituição do universo, como usado nas filosofias antigas.

Encontramos pessoas cujas mentes são como sílex, tão rígidas que não se pode causar-lhes impressão alguma.

Mesmo sem desenvolver tal dureza extrema, pode haver fixações na mente difíceis de remover.

A consciência que é fluídica adquire, por um processo de contínuos apegos quando em estado de inconsciência, uma rigidez que é alheia à sua própria natureza fundamental.

Em vez de fluir como água, torna-se congelada como um bloco de gelo duro.

Ela absorve ideias, contrai hábitos, e estes criam certa estrutura, que chamamos de mentalidade de uma pessoa.

A estrutura é realmente uma moldura dentro da qual pode haver uma certa fluidez que pode transmitir pressão como a água.

Se uma pessoa é pressionada em uma direção, ela pode descontar em outra.

Ela pode ser insultada por seu superior no escritório e, não podendo revidar, extravasa sua raiva em um subordinado ou na criança em casa.

Naturalmente, isso é totalmente irracional, mas ocorre mecanicamente, sem que qualquer inteligência livre entre em cena.

Quando uma pessoa não pode ter um tipo de satisfação, ela pode encontrar compensação em outra, como também é bem conhecido.

A consciência também pode ser sutil como o ar, ou brilhar como fogo com amor ou entusiasmo.

Tudo isso mostra sua natureza proteica, correspondendo em seus diferentes estados de espírito e ações a diferentes condições e fenômenos da matéria.

Além disso, ela pode expandir-se e contrair-se, estar completamente aberta a tudo ou incluir muitas coisas, ou concentrar-se em uma única coisa.

Há nela uma dupla direção.

Ela pode voltar-se para fora, para as coisas do mundo externo, ou para dentro, para suas memórias, ideias e emoções; em outras palavras, ser objetiva ou subjetiva, e os dois movimentos estão relacionados.

Uma pessoa pode parecer totalmente voltada para fora quando há uma subjetividade inconsciente que constrói e causa os movimentos voltados para fora.

É o apego e a influência das próprias memórias que causam tanto o desejo quanto o medo.

O desejo é a exigência de repetição de certas experiências, e em sua forma geral de sede por sensação ou experiência, é a força motriz por trás da reencarnação.

O medo, mesmo quando parece medo do desconhecido, é na verdade um reflexo ou projeção de algo conhecido, já presente na própria experiência.

Segundo meu entendimento — tenho de falar dessa maneira qualificada, pois estou apenas tentando compreender — a memória não é uma faculdade, que é capacidade de ação em um modo particular semelhante a uma técnica; é a própria natureza da consciência em si.

A consciência é algo tão extraordinário, nem como a matéria nem como o Espírito — ambos os quais são percebidos ou realizados apenas na própria consciência — mas pode participar da natureza de qualquer um dos dois.

É como o Espírito em essência e em seu conhecimento, como a matéria em assumir forma e retenção de impressões.

Em sua natureza pristina, que não se presta a qualquer influência externa, nenhuma ação vinda de fora pode causar qualquer mudança que não seja assimilável com essa natureza.

A vida, quando vista como uma sucessão de estados ligados pela causalidade, uma lei que rege o campo da matéria, mostra a natureza de uma continuidade modificada.

A vida tem de acompanhar a matéria, mas a consciência, sendo inerentemente livre, pode ser influenciada pela matéria, isto é, pelas condições da matéria, ou ser livre dela, liberdade essa que pode ser pensada como aliando-se ao Espírito.

A consciência, embora em si mesma sem forma, é como a matéria, na medida em que tem a natureza de uma substância capaz de ser moldada por influências externas quando não está desperta para esse processo.

Todos nós somos assim influenciados.

Uma criança torna-se eventualmente católica, comunista ou algo mais, de acordo com as influências a que se entregou.

Ela é tanto barro a ser moldado, quando em estado de inconsciência, quando se permite envolver num mecanismo de reações, não entrando em jogo a sua livre inteligência.

A verdadeira liberdade é sair desse mecanismo, do automatismo estabelecido no processo do nosso pensamento e das nossas emoções, nas nossas relações com as coisas e as pessoas.

Esse automatismo é ação em estado de sonho.

A consciência pode estar em um de três estados: vigília, sono no qual há sonho, e sono profundo no qual não há sonho algum.

No sonho, é o que está impresso no cérebro ou na consciência que entra em jogo irracionalmente, porque não está suficientemente desperto para estar ciente da logicidade, da adequação das coisas, de como as coisas realmente acontecem.

Quando estamos despertos, o impacto do mundo objetivo ao nosso redor mantém o nosso pensamento em estado de conformidade geral com ele; não podemos agir como se estivéssemos no mundo de Alice no País das Maravilhas.

Mas na medida em que o automatismo do estado psicológico de alguém, cujo centro é o 'eu', entra em jogo, é uma condição de sonho que prevalece em meio à vigília.

Se a pessoa não está totalmente desperta, a ação vem das impressões.

É o que o mundo lhe incutiu por meios brutais, sedutores e sutis que está em ação, não aquela consciência pura que conhece as impressões ou o que elas são, meras gravações, e as descarta por não se apegar a elas.

As memórias ainda estão lá, mas não dominam nem encerram — cujo encerramento é o 'eu' — não são mais as sombras de uma prisão, mas se transformam em uma paisagem aberta.

Pensamos que o que está na mente é subjetivo, mas as imagens na mente também são objetivas.

Todo pensamento é criação de imagens, construção de objetos no campo da consciência pura que, despojada de tudo exceto sua própria natureza, é o sujeito puro.

É o sujeito puro, que nada tem em si do passado, nada devido aos processos do tempo, sem desejar, sem buscar, sem projetar, que somente ele conhece a Verdade.

Uma opinião ou ponto de vista não é a verdade.

Na questão da beleza, por exemplo, pode haver duas opiniões sobre se uma coisa é bela.

A opinião depende ou é influenciada pelo que dá prazer e estimulação, ou pela condicionamento de cada um.

O gosto de alguém em matéria de alimentação é de acordo com o seu condicionamento.

Mas não existe tal coisa como a verdadeira beleza, independentemente das opiniões que são moldadas por tantos fatores adventícios? É aquele sujeito puro, sua natureza pura, que conhece infalivelmente o que é verdadeiramente belo.

Ele tem em si o teste ou a pedra de toque da verdade, da verdadeira virtude, da verdadeira moralidade e de todas as outras coisas que são belas em mais do que o sentido físico.

Em um aspecto, é uma expansão pura, o espelho da verdade, mas em outro é um ponto adimensional, o centro da individualidade espiritual, do qual irradia a cada momento uma ação de natureza específica ou em direção específica, conforme a natureza do objeto ou da situação que desafia sua atenção.

Uso a palavra ação para incluir pensamento, sentimento, amor, qualquer mudança causada em qualquer relação, o fluxo elétrico que conecta dois tais pontos.

Este ponto adimensional não é um centro de apegos, não retém nada, não é o 'eu' que descreve um círculo ao redor de si mesmo, separando-se dos outros.

Não é nada em si mesmo, exceto aquilo que brota dele como uma criação ou como forças capazes de criação.

É um centro para o fluxo de vida como energia pura, ramificando-se daquele ponto como de uma raiz invisível para um mundo de verdade e beleza.

A consciência em seu aspecto de expansão pura torna-se um meio ou torna-se o corpo do Espírito.

A individualidade, cuja própria substância é consciência, torna-se uma árvore de vida e sabedoria, ou poderíamos imaginá-la como uma flor que brota da Raiz Desconhecida.

Todas essas símiles são apenas sugestões para nosso entendimento.

A natureza do Ser puro — a palavra implica tanto vida quanto consciência — ou de um ser puro como o Buda, é uma flor tão etérea, tão sensível, bela e perfeitamente composta, e ao mesmo tempo um ser de verdade, vida e sabedoria, que é o significado literal da palavra Bodhisattva.

Tal natureza está a mundos de distância daquela da mente como opera em nós. Esta mente é realmente adaptada para lidar com o mundo da matéria e as diferenças que ali existem.

Sua atenção é dirigida aos particulares e ela os compreende como são em relação uns aos outros, por comparação.

A mente é manas, distinguida de buddhi, que geralmente é traduzida como intuição espiritual.

"BUDDHI" — O INSTRUMENTO DO ESPÍRITO

Manas e buddhi são considerados na filosofia indiana como dois princípios distintos na constituição do homem, embora o que buddhi exatamente signifique tenha sido interpretado de várias maneiras.

Buddhi pode ser considerada como o meio ou instrumento do Espírito, a palavra Espírito significando não algo que se possa identificar, mas algo que resume uma infinidade de aspectos e expressões.

Manas pensa, raciocinando passo a passo, por mais rapidamente que seja, movendo-se através de uma série de imagens que tomam forma a cada instante a partir do material da memória.

Conhece as coisas apenas à distância, pela tradução de vibrações em sensações e sentimentos, por interpretação, usando os símbolos de imagens ou palavras como substitutos para os atos.

Assim, conhece apenas a aparência ou forma das coisas, e pode conhecer a natureza da vida apenas por comparação, inferência e imaginação.

Observamos os movimentos de uma criatura viva e atribuímos a ela certos sentimentos ou motivos, imaginando os sentimentos ou motivos que em nós provocariam tais movimentos.

A mente tem constantemente de supor, de formular hipóteses, para preencher a lacuna entre os atos que observa.

A ciência moderna baseia suas realizações quase inteiramente em cálculos em termos de símbolos.

Do seu ponto de vista, o universo tal como o experimentamos é incidental às suas equações, à sua linguagem simbólica.

A mente apenas se move em direção à verdade; ela não está realmente no local e una com o objeto para conhecê-lo em verdade.

Porque não é o ser inteiro, mas apenas um instrumento, não há no movimento do pensamento de um ato a outro, ao conectá-los, aquele sentimento de realidade que pertence à ação do ser inteiro — mente, coração e tudo o mais nele — que experimentamos em raros momentos de nossas vidas.

Buddhi, como a entendo, age de maneira totalmente diferente.

Se há uma intuição da verdade ou da beleza, como ela surge? Deve haver alguma ação na totalidade ou corpo da consciência precedendo sua emergência.

Como o funcionamento de buddhi é a ação de toda a consciência, poderíamos imaginar o todo, que é a totalidade das sensibilidades e da capacidade de ação de alguém, como uma esfera perfeita e translúcida.

Esta é uma simile material, mas é preciso compreender a ação de buddhi, que é essencialmente sem forma, em termos que a expliquem à mente.

Uma vez que a ação é por toda a consciência, imaginemos cada ponto da esfera, cada um um ponto de sensibilidade, movendo-se em direção ao centro, mas cada um apenas até uma certa distância, até um certo ponto, e que todos os pontos juntos então formem ao redor do centro uma figura de beleza absoluta.

Esta figura é uma criação de toda a consciência.

Esta forma pode ser totalmente invisível.

Pode estar presente apenas a beleza dela, o sentimento que a permeia, a alma ou essência daquela forma.

A criação inteira deve ser imaginada como ocorrendo num lampejo e com a máxima espontaneidade.

Não é um processo de reunir partes laboriosamente, mas uma criação instantânea por uma inteligência que permeia toda a esfera e que tem a qualidade de um mestre artista.

Os movimentos são de velocidade relâmpago por causa da extraordinária sensibilidade; não há nada que impeça a ação, não havendo bloqueio, nem tensão, nem medo, nem apegos, nem redemoinho de agitação naquela esfera.

O movimento é um movimento em liberdade.

Pode-se perguntar se pode realmente haver a possibilidade de tal ação na natureza do homem.

Há uma pobre analogia num fenômeno que podemos notar no corpo humano.

Há tantos processos dos mais diversos tipos ocorrendo nele a cada instante, mas todos são perfeitamente coordenados por uma inteligência eletrônica que não é nossa, mas da Natureza, agindo no corpo e o permeando.

É uma inteligência da natureza de um instinto.

A ação é precisa, medida e mecânica, e resulta no perfeito bem-estar do corpo.

A inteligência que é buddhi produz não mera coordenação, mas harmonia, que é de significado totalmente superior.

Ele também age com rapidez e precisão, mas com o senso e o discernimento de um mestre artista que sabe, sem qualquer pensamento, o que é a beleza perfeita.

A intuição não é um palpite, não é um pensamento ilusório, mas uma faculdade.

É como o instinto, mas há uma vasta diferença entre eles.

O instinto é fixo e age apenas em certas situações.

Funciona mecanicamente.

Sua ação é cega, elementar e repetitiva.

Mas o buddhi é sempre livre; não se move em trilhos fixos.

É a inteligência incondicionada, e cria novamente a cada vez.

O desenvolvimento do pensamento no homem suprimiu o instinto.

Mas quando todo o modo de pensar se torna diferente, quando cessa de dividir, de moldar e alterar a consciência subjacente, então o instinto dos estágios anteriores reaparece com uma natureza superior, como uma capacidade de conhecer a verdade e criar a imagem da verdade.

Quando o manas recupera seu estado indiviso, ele automaticamente se integra ao buddhi, porque há apenas uma consciência no homem, embora tenha esses dois modos de ação.

É então uma nova consciência, que tem em si mesma a natureza da verdade e, em suas ações, expressa a beleza dessa verdade.

A novidade sempre esteve lá, esperando para ser descoberta.

Em um dos antigos hinos sânscritos, Purusha, o Espírito universal, é descrito como estando em um estado de sempre estar nascendo e sempre prestes a nascer.

Assim, é indicado que sua natureza é a natureza da criação e do recém-nascido, intocada pelas mudanças do tempo.

A consciência que realiza essa natureza retém sua novidade.

Ela reflete a verdade, responde com a plenitude de si mesma e não envelhece.

A mudança que ocorreu é que ela agora permanece em sua própria natureza, tendo se despojado, de uma vez por todas, de tudo o que havia absorvido, contraído, construído e imaginado em sua ignorância.

No processo do tempo, ela foi continuamente agida e nunca foi ela mesma.

Agora ela é verdadeiramente ela mesma, plenamente desperta e livre, com uma liberdade que é a natureza realizada de seu ser.